O hormônio do vínculo também serve ao orgulho
A ocitocina ficou famosa como o hormônio do amor. Os estudos mostram outra coisa: ela aumenta o volume de tudo o que é social, inclusive a vontade de concordar com a turma e a pontada de inveja quando o outro ganha.
O celular vibra em cima da mesa. É o grupo da família. Seu primo mandou uma foto encostado num carro novo, ainda com o laço vermelho no capô.
Você digita "Parabéns, primo! 🎉" em dois segundos. Os outros vão mandando corações. A tia escreve que ele merece.
Você coloca o celular de volta na mesa e percebe uma coisa estranha. Está contente por ele, de verdade. E, ao mesmo tempo, sente uma pontada no estômago que não sabe explicar, junto com uma vontade de olhar de novo a foto, só para ver o modelo.
As duas coisas são reais. E a química que sustenta as duas é, em boa parte, a mesma.
Onde isso costuma aparecer
Os sinais são miúdos e acontecem todo dia:
- O parabéns com pontada. Você fica feliz pela conquista de alguém próximo e, no mesmo minuto, sente que ficou para trás.
- A opinião que muda no meio da roda. Você chegou ao almoço pensando uma coisa e saiu concordando com a mesa inteira, sem lembrar quando mudou de ideia.
- O "nós" e o "eles". No seu time, no seu bairro, na sua igreja, no seu grupo de colegas, todo mundo parece razoável. Do outro lado, todo mundo parece meio burro ou meio mal-intencionado.
- O alívio quando o outro tropeça. Alguém que vivia se exibindo perdeu o emprego, e você sente pena e uma pontinha de satisfação que não teria coragem de dizer em voz alta.
- O medo de destoar. Você sabe que discorda, mas não fala, porque falar seria ficar de fora.
Nenhum desses sinais faz de alguém uma pessoa ruim. Eles mostram um sistema funcionando. A Virtologia dá nome a ele.
O orgulho, do jeito que a Virtologia o define
Na Virtologia, de Eduardo Casarotto, orgulho não é gostar de si nem ficar contente com uma conquista. É a necessidade primitiva de ter importância para ser aceito e aprovado pelo grupo, e assim ter a sensação de sobrevivência.
A base dessa necessidade está no tronco cerebral, a parte mais antiga do cérebro, a que cuida da respiração, do batimento e do alerta. Ali está gravada uma mensagem que todo animal social carrega: em bando nós sobrevivemos. O córtex, a parte que pensa, pega essa urgência e a transforma numa ordem mais exigente: para ficar no grupo, eu preciso ter importância dentro dele.
A partir daí, o cérebro passa a medir o tempo todo a posição da pessoa em relação aos outros. A Virtologia chama esse sistema de SNO, o Sistema Neurofuncional do Orgulho. Ele faz uma conta que não para: eu em relação a eles.
E cada grupo tem a sua moeda de importância. Num, vale ser simples. Noutro, ter dinheiro. Noutro, ser o mais inteligente, o mais dedicado, o mais engraçado. Quem precisa de importância aprende a moeda do grupo e paga nela, quase sempre sem perceber.
Guarde essas três peças: pertencer ao grupo, pagar na moeda do grupo e fazer a conta de comparação. Elas vão aparecer, uma por uma, nos estudos com ocitocina.
A química do vínculo
A ocitocina é produzida no hipotálamo, uma região pequena na base do cérebro que faz a ponte entre o corpo e as emoções. Ela ficou famosa por três coisas: o parto, a amamentação e o vínculo. É o hormônio que faz a mãe colocar a cria antes de si mesma, e que, nos adultos, acompanha o abraço, a confiança e o cuidado.
No artigo Cuidar do outro acalma quem cuida, mostrei a face mais bonita desse sistema: a ocitocina freia o cortisol, o hormônio do estresse, e cuidar de alguém acalma o alarme de quem cuida.
Por isso ela ganhou o apelido de "hormônio do amor". O apelido pegou nas revistas, nos posts e nas palestras. Os laboratórios contaram uma história mais complicada.
O "nós" fica mais forte
O psicólogo holandês Carsten de Dreu dedicou boa parte da carreira a estudar a ocitocina em grupos. Em 2010, ele mostrou que, em jogos econômicos entre grupos que disputavam recursos, quem recebia ocitocina ficava mais generoso e mais confiante com o próprio grupo e mais defensivo diante do grupo rival.
Em 2011, ele foi além. Recrutou homens holandeses e deu a uma parte deles ocitocina por spray nasal, e à outra um placebo. Primeiro, mediu associações automáticas, aquelas que a pessoa faz sem pensar: quem tinha recebido ocitocina ligou mais palavras positivas a nomes holandeses do que a nomes árabes ou alemães.
Depois, apresentou dilemas morais. Num deles, cinco pessoas vão morrer, a não ser que uma seja sacrificada. Quando a pessoa a ser sacrificada tinha nome holandês, os participantes sob ocitocina hesitavam mais. Quando tinha nome de fora, sacrificavam com mais facilidade.
O hormônio do vínculo não tornou ninguém mais amoroso com a humanidade. Tornou mais leal aos seus.
O hormônio do rebanho
Em 2012, Mirre Stallen, também com De Dreu, publicou um estudo com um título que diz tudo: "O hormônio do rebanho".
Os participantes avaliavam o quanto gostavam de símbolos visuais desconhecidos. Depois de cada avaliação, viam o que tinham respondido outras pessoas, do próprio grupo ou de um grupo de fora. Em seguida, avaliavam os mesmos símbolos de novo.
Quem recebeu ocitocina mudou a própria opinião para ficar mais perto da opinião do próprio grupo. Diante da opinião do grupo de fora, não mudou.
Ninguém pressionou ninguém. Não houve discussão, nem cara feia, nem ameaça de exclusão. Bastou saber o que a turma achava.
Na linguagem da Virtologia, é a moeda do grupo sendo aprendida e paga em tempo real. A pessoa não decide concordar. Ela passa a gostar do que o grupo gosta, e sente que a opinião é dela.
A pontada de inveja
O terceiro estudo é o mais desconcertante. Em 2009, Simone Shamay-Tsoory, da Universidade de Haifa, em Israel, colocou voluntários para jogar um jogo de sorte contra outra pessoa, que na verdade era um programa de computador. Às vezes o adversário ganhava mais dinheiro, às vezes menos.
Quem recebeu ocitocina sentiu mais inveja quando o adversário ganhava mais. E sentiu mais prazer quando o adversário perdia, o que em alemão tem nome próprio, Schadenfreude, e em português ficou como "gozo com a desgraça alheia".
O detalhe que importa: nas rodadas em que os dois ganhavam a mesma quantia, a ocitocina não mudou nada. Mudou só o que dependia da diferença entre um e outro.
É exatamente a conta do SNO, eu em relação a eles. O hormônio do vínculo deixou essa conta mais barulhenta.
Nem amor nem ódio: volume
Como o mesmo hormônio pode aumentar o cuidado e a inveja, a confiança e a defesa? Em 2016, Shamay-Tsoory e Ahmad Abu-Akel propuseram uma explicação que hoje é uma das mais aceitas, a hipótese da saliência social.
A ideia é simples. A ocitocina não carrega um sentimento. Ela aumenta a importância que o cérebro dá aos sinais sociais: um rosto, um tom de voz, uma comparação, um sinal de quem é do grupo e quem não é. O que ela faz com esses sinais depende do contexto.
Num ambiente de vínculo e segurança, o volume alto dos sinais sociais vira cuidado, confiança e aproximação. Num ambiente de disputa, comparação ou ameaça, o mesmo volume alto vira inveja, defesa e lealdade cega ao próprio grupo.
A ocitocina funciona como o botão de volume de um rádio. Ela não escolhe a música.
Quem está no comando
É aqui que a pesquisa encontra a Virtologia, e vale separar o que é cada coisa.
Os estudos mostram que a química do vínculo amplifica o que já está tocando. A Virtologia diz o que costuma estar tocando quando o orgulho está no comando: a conta de posição, a necessidade de pertencer a qualquer preço, a moeda do grupo. Com o SNO no comando, a ocitocina trabalha para ele. Ela reforça o "nós" contra o "eles", faz a pessoa pagar na moeda da turma e deixa a comparação mais dolorida.
Isso explica uma coisa que muita gente estranha: pessoas muito ligadas ao próprio grupo, muito calorosas com os seus, podem ser frias ou até cruéis com quem está de fora. Não é contradição. É o mesmo sistema, com o volume no máximo e o orgulho escolhendo a música.
Na Virtologia, a virtude que tira o orgulho do comando é a Humildade. Ela é a primeira virtude da Base da Pirâmide e a única que não precisa de nenhuma outra antes. A Humildade não apaga a necessidade de pertencer. A pessoa continua precisando de um lugar no grupo. O que muda é que ela deixa de precisar que esse lugar seja acima de alguém, e deixa de sentir que destoar da turma é morrer.
Quando isso acontece, o volume social continua alto, mas a música muda. A mesma ocitocina que alimentava a comparação passa a alimentar o cuidado. A notícia do carro novo do primo chega e a pontada é menor, porque a conta de posição perdeu força.
E a Humildade não trabalha sozinha. O par dela na Base é a Abnegação, a virtude que leva o cuidado para além do "nós", até o desconhecido. A Humildade afrouxa a fronteira do grupo. A Abnegação atravessa essa fronteira. Sem a Humildade antes, a Abnegação vira exibição. Sem a Abnegação depois, a Humildade fica sem para onde ir.
O que está medido e o que é leitura
Duas camadas convivem neste texto, e separá-las evita que ele diga mais do que pode.
A primeira camada é a pesquisa. Os estudos de De Dreu, Stallen e Shamay-Tsoory foram publicados em revistas sérias, com grupo de controle e placebo. A hipótese da saliência social organiza esses achados de um jeito que muitos pesquisadores aceitam.
Há ressalvas importantes. Quase todos esses estudos usaram ocitocina em spray nasal, e esse método tem um histórico de resultados que não se repetem quando outros laboratórios tentam. Muitos usaram só homens, em grupos pequenos. E medir a ocitocina no sangue ou na saliva diz pouco sobre o que acontece dentro do cérebro. Por isso, o mais honesto é tratar esses achados como peças que apontam na mesma direção, e não como uma lei da natureza.
A segunda camada é a leitura da Virtologia. Ninguém mediu o "orgulho" no sentido que a Virtologia dá à palavra, a necessidade de ter importância para pertencer. Ligar esses estudos ao SNO e concluir que a Humildade muda a música que a ocitocina amplifica é o método organizando os achados. É uma leitura coerente com eles e útil na clínica. Não é algo que um estudo tenha testado diretamente.
Como isso aparece na vida real
Três cenas ajudam a reconhecer o sistema.
A torcida que vira guerra. Um homem tranquilo, bom pai, bom vizinho, que no estádio xinga o torcedor adversário com um ódio que assusta a própria esposa. Fora do estádio, ele é gentil. Dentro, o "nós" contra "eles" toma conta. O vínculo com a torcida é real e caloroso. É esse mesmo calor que vira fúria contra quem veste a outra camisa.
A opinião que não é sua. Uma mulher que, em cada grupo que frequenta, pensa como o grupo. Com as amigas da faculdade, tem uma posição política. Com a família do marido, outra. Ela não mente em nenhum dos dois. Simplesmente sente as duas como verdadeiras, conforme a mesa. O trabalho com ela não começa pela política. Começa pela pergunta de quanto ela precisa ser aceita em cada mesa.
O parabéns com pontada. A cena do começo. A pessoa gosta do primo e fica contente por ele. A pontada não desmente o carinho. Mostra que, ao lado do vínculo, a conta de posição está ligada. Com a Humildade, o carinho fica e a conta perde volume.
O teste da turma. O objetivo é perceber quando a sua opinião é sua e quando é a moeda do grupo, e onde a conta de comparação está ligada.
- Escolha um grupo de que você gosta muito. A família, os amigos de longa data, os colegas de trabalho, a igreja, o time.
- Anote três opiniões que todo mundo nesse grupo tem. Sobre política, dinheiro, comida, criação de filhos, o que for.
- Pergunte a você mesmo, sobre cada uma: "eu pensaria isso se tivesse crescido em outro grupo?" Não precisa mudar de opinião. Só perceber de onde ela veio.
- Na próxima pontada, dê nome a ela. Quando alguém próximo conquistar algo e você sentir a pontada, escreva numa linha: "a conta de comparação ligou". Sem culpa e sem disfarce. É só o sistema funcionando.
- Faça um gesto pela pessoa da pontada. Um elogio específico, sincero, sobre o esforço dela, e não sobre o resultado. É a Humildade treinando o cérebro a ligar a conquista do outro ao vínculo, e não à perda de posição.
O que muda quando muda
A ocitocina vai continuar subindo no almoço de família, no estádio, na roda de amigos. O volume dos sinais sociais não abaixa, e nem deveria, porque é ele que sustenta o vínculo.
O que muda é quem escolhe a música. Com o orgulho no comando, o volume alto vira lealdade cega, opinião emprestada e inveja disfarçada de parabéns. Com a Humildade no comando, o mesmo volume vira cuidado, curiosidade pelo outro e alegria pela conquista de quem está perto.
O primo continua com o carro novo. A diferença é que a foto chega, você manda o parabéns, e a mão não volta ao celular para olhar o modelo.
Se a comparação com os outros vem ocupando o seu dia, tirando o sono ou trazendo uma tristeza que não passa, isso merece mais do que um artigo. Conversar com um profissional de saúde mental ajuda a entender de onde vem essa conta e a tirar o volume dela.
Continue com Cuidar do outro acalma quem cuida, O orgulho não é o que você pensa ou A comparação que rouba a sua paz.
Referências. De Dreu, C. K. W. et al. (2010). The neuropeptide oxytocin regulates parochial altruism in intergroup conflict among humans. Science. De Dreu, C. K. W. et al. (2011). Oxytocin promotes human ethnocentrism. PNAS. Stallen, M. et al. (2012). The herding hormone: oxytocin stimulates in-group conformity. Psychological Science. Shamay-Tsoory, S. G. et al. (2009). Intranasal administration of oxytocin increases envy and schadenfreude (gloating). Biological Psychiatry. Shamay-Tsoory, S. G.; Abu-Akel, A. (2016). The social salience hypothesis of oxytocin. Biological Psychiatry.
