Alquimia das Virtudes Alquimia das VirtudesBlog · por Isabella Becker
Autoconhecimento

A negligência é egoísmo do avesso

Quem adia o médico, larga a caminhada e janta em frente ao celular costuma se achar alguém que se coloca por último. O cérebro decide de outro jeito: quem ganha é o conforto de agora, e quem paga é você amanhã.

Por Isabella Becker · Alquimia das Virtudes

Se você vive adiando o exame, larga a academia na segunda semana e passa da meia-noite rolando a tela mesmo sabendo que acorda às seis, provavelmente você se acha uma pessoa que se coloca por último. Alguém que cuida de todo mundo e esquece de si. Na Virtologia, de Eduardo Casarotto, esse retrato pode estar de cabeça para baixo. O descuido consigo costuma ser egoísmo. Não o egoísmo que tira do outro, mas o que se volta contra a própria pessoa.

Ontem escrevi sobre a primeira metade dessa ideia, em O crítico interno é orgulho do avesso. Este texto é sobre a segunda metade. As duas aparecem juntas, numa frase de Casarotto sobre a relação que cada um tem consigo mesmo:

"O orgulho, voltado para dentro, vira autocrítica cruel (a exigência de ser perfeito aos próprios olhos); o egoísmo, voltado para dentro, vira negligência." — Eduardo Casarotto

A autocrítica cruel eu já destrinchei. Agora quero mostrar por que a negligência, que parece o oposto do egoísmo, é o mesmo sistema funcionando com a mira virada.

O que o egoísmo faz

Na Virtologia, o egoísmo não é um defeito de caráter avulso. É um sistema do cérebro, o SNE, Sistema Neurofuncional do Egoísmo. Ele nasce na mesma base de sobrevivência que o orgulho, só que com outra instrução. O orgulho diz "preciso ter importância para não ficar de fora do bando". O egoísmo diz "primeiro eu me garanto". O orgulho calcula a sua posição. O egoísmo calcula a sua vantagem. Expliquei os dois sistemas lado a lado em O orgulho não é o que você pensa.

A operação central do SNE é uma arbitragem que o cérebro faz o tempo todo, antes de você perceber que fez: vale mais o meu ganho ou o do outro? Quem pesa isso é o córtex pré-frontal ventromedial, a região que funciona como calculadora de valor. E é por isso que coisas que parecem muito diferentes saem da mesma raiz:

"Não há muitos egoísmos. Há um sistema de prioridade de si mesmo, que se manifesta de várias formas." — Eduardo Casarotto

Entre essas formas estão a agressividade, a indiferença às necessidades alheias, o controle, a transgressão. E estão duas que interessam aqui: o escapismo e a adicção.

O que o impulso deixa de fora

Para entender como o egoísmo pode se voltar contra a própria pessoa, a peça mais útil é uma fórmula que Casarotto usa para descrever o apagão, aquele instante em que o impulso passa por cima de tudo o que a pessoa sabe:

recompensa imediata ≫ Σ(custos futuros + outro)

De um lado está o que eu ganho agora. Do outro lado, somados, estão o custo futuro e o outro. No apagão, o lado de cá pesa tanto que o lado de lá some.

Quando a gente fala de egoísmo, quase sempre olha só para a segunda parcela: o outro que ficou sem a sua parte, sem a ligação, sem a atenção. Mas a fórmula tem duas parcelas. E a primeira é o futuro.

A partir daqui é uma leitura minha, à luz da Virtologia. Na negligência, a parcela que desaparece não é o outro. É você daqui a um mês, daqui a um ano, daqui a dez. O egoísmo continua com a mesma regra, "primeiro eu me garanto", só que o "eu" que ele garante é o de agora. O de amanhã pesa tão pouco quanto pesaria um estranho.

Na negligência, o egoísmo não tira do outro. Tira de você amanhã.

Fugir da realidade, afagar as próprias dores

Casarotto organiza os instintos primitivos que dividimos com os animais em quatro movimentos, e mapeia cada um nos dois sistemas. Dois deles são do egoísmo e descrevem o descuido consigo com uma precisão desconfortável:

"Reforço negativo" é um termo que confunde, porque parece castigo. Não é. É o nome que se dá quando um comportamento se fortalece porque tira um desconforto. O pesquisador George Koob descreveu esse lado escuro da compulsão: em certo ponto, a pessoa já não busca o prazer, busca o alívio.

Na prática, funciona assim. Chega a hora da caminhada e bate o cansaço. O sofá tira o cansaço na hora. Chega a hora de marcar o exame e bate o medo do resultado. Não marcar tira o medo na hora. Chega a noite e bate o vazio do dia. O celular, a comida ou a série tiram o vazio na hora. Em todos os casos o alívio funciona. E cada vez que funciona, o cérebro aprende que aquele é o caminho.

O custo também chega, só que mais tarde, espalhado e sem data. O corpo que perdeu força, o exame que virou diagnóstico, o sono que nunca se recupera. O cérebro primitivo foi feito para resolver o agora. Ele não tem pressa nenhuma com o que vem depois. Escrevi sobre a fuga mais à mão de todas em A fuga que cabe no bolso.

A miopia para o futuro

Existe um estudo de neurociência que mostra isso acontecendo, e ele é fora da Virtologia.

O neurologista António Damásio e sua equipe criaram um jogo de cartas com quatro baralhos, o Iowa Gambling Task. Dois baralhos pagam muito, mas de vez em quando cobram uma multa enorme, e no fim dão prejuízo. Os outros dois pagam pouco, quase não multam, e no fim dão lucro. Ninguém conta isso aos jogadores. Eles precisam descobrir jogando.

Pessoas sadias, depois de algumas rodadas, começam a evitar os baralhos perigosos antes mesmo de saber explicar por quê. O corpo avisa primeiro: a pele registra uma pequena reação de alarme quando a mão vai em direção ao baralho ruim. Damásio chamou esse aviso de marcador somático, um sinal do corpo que enviesa a decisão antes que a cabeça termine de pensar.

Já as pessoas com lesão no córtex pré-frontal ventromedial não geram esse aviso. Elas entendem as regras, sabem que estão perdendo, e continuam escolhendo o baralho que paga muito agora, apesar da punição maior que vem depois. Damásio chamou isso de miopia para o futuro. Casarotto lê esse achado como o substrato exato da fórmula do apagão.

A região que, lesionada, produz a miopia para o futuro é a mesma que o SNE usa para pesar o meu ganho contra o do outro. É a mesma calculadora de valor nas duas decisões.

Duas ressalvas são necessárias. A mecânica corporal da hipótese de Damásio ainda é debatida; há pesquisadores que contestam a leitura das reações da pele e outros que mostram que os jogadores sabem mais do que parecem saber. O que é sólido é o fenômeno clínico: depois da lesão, a decisão fica míope. E a segunda ressalva é a mais importante: quem se negligencia não tem lesão nenhuma. O que ele tem é um aviso que não foi treinado para disparar a tempo. O corpo sinaliza depois, quando a decisão já foi tomada.

Não é falta de força de vontade

Quando alguém se percebe nesse padrão, a explicação que aparece primeiro é a fraqueza: "eu não tenho força de vontade". Por anos a psicologia deu respaldo a essa ideia, com a teoria de que o autocontrole seria um músculo que se esgota ao longo do dia. A Virtologia registra que essa explicação não se sustentou: uma replicação com vinte e três laboratórios e mais de dois mil participantes, feita em 2016, não reproduziu o efeito. O cansaço de sustentar um esforço é real. O que caiu foi a ideia de um tanque de vontade que se esvazia.

Isso muda a pergunta. Se não é um músculo fraco, é um padrão que o cérebro aprendeu de tanto repetir o alívio. E um padrão aprendido pode ser substituído por outro, com treino.

Casarotto descreve como a relação consigo aparece em cada nível de maturidade. Nas Faixas mais primitivas, ela é "negligência ou tirania": ou a pessoa se abandona, não se cuida, não se desenvolve, ou se tiraniza com autocrítica e exigência implacável. E aponta o que as duas têm em comum: "a indisciplina ou a autopunição como modos de não se encarar".

Na prática, é comum ver as duas se revezando na mesma pessoa. A semana inteira de abandono, depois a segunda-feira de regime cruel, depois o abandono de novo, agora com culpa. O egoísmo voltado para dentro e o orgulho voltado para dentro se alimentam. Um produz o estrago, o outro chicoteia, e nenhum dos dois cuida.

Às vezes a negligência vem vestida de outra coisa. Há uma persona do "despreocupado", que diz não ligar para essas coisas, não ser neurótico com saúde. E há a que se apresenta como dedicação: a pessoa que nunca se cuida porque está sempre cuidando de todo mundo. Nesse segundo caso vale olhar com atenção, porque nem sempre é Abnegação. Casarotto avisa que a renúncia sem Humildade "vira exibição: a pessoa se sacrifica para ser vista se sacrificando". O descuido, aí, pode estar servindo ao orgulho e não ao outro.

O corpo que sinaliza e ninguém escuta

A relação consigo tem duas faces, a do corpo e a da mente, e Casarotto lembra que uma puxa a outra: "o corpo negligenciado adoece a mente, e a mente em desordem abandona o corpo". Na face do corpo, a negligência tem um nome mais preciso: negligência somática. Ela aparece em três famílias:

O que acontece no cérebro de quem negligencia o corpo é descrito assim: o sistema de alerta aponta a antena toda para fora. Tela, trabalho, conversa, notícia. O que vem de dentro não é captado. Se você perguntar, a pessoa diz, com essas palavras, que esquece que tem corpo. E o efeito prático é perigoso, porque ela só percebe o corpo quando o sinal vem altíssimo: a exaustão depois de meses, a dor quando o processo já se instalou, o sintoma quando o quadro já cronificou.

O corpo não parou de sinalizar. A fadiga que pediria uma pausa está lá. A fome e a saciedade estão lá. A tensão que pediria movimento ou repouso está lá. O que falta é alguém escutando.

A Abnegação também olha para dentro

Esta parte, para mim, abriu uma porta. E de novo é leitura minha, à luz da Virtologia, porque Casarotto define a Abnegação pelo outro: o egoísmo é "eu primeiro", a Abnegação é "o outro primeiro".

Mas a descrição que ele dá do que a Abnegação faz vai além do outro:

"Basicamente, abnegação quer dizer renúncia. Renúncia das suas vontades e dos seus desejos. Se você lembrar desse conceito, renunciar, você vai estar na direção certa: vai deixar as pulsões para depois, como processo secundário, vencendo o instinto primário de prazer e desprazer." — Eduardo Casarotto

E logo adiante ele liga a renúncia ao vício: quem vive atrás dos próprios desejos tem um pico de prazer que passa em instantes ou dias, depois precisa de mais, ou de outro. "Essa é a base do vício e da compulsão. E para vencer o vício em qualquer coisa, o caminho mais eficaz é desenvolver a virtude da Abnegação."

Se a Abnegação é o deslocamento treinado desse cálculo do egoísmo, e se do outro lado da fórmula estão o outro e o futuro, então a mesma virtude que tira o peso automático do meu ganho diante do outro tira também o peso automático do meu alívio diante do meu amanhã. Renunciar ao sofá para caminhar, renunciar à tela para dormir, renunciar ao alívio de não saber para marcar o exame é renúncia no sentido exato que ele dá à palavra: deixar a pulsão para depois.

Casarotto faz questão de dizer o que a Abnegação não é: "Não é anular-se: é reponderar." Isso protege a leitura de virar o seu contrário. Abnegação nunca foi se esquecer de si para servir os outros. Ele descreve o ego forte como quem "importa-se com o coletivo sem perder o cuidado consigo". A pessoa que larga o próprio corpo em nome dos outros não está praticando Abnegação. Está, muitas vezes, praticando a negligência com uma justificativa bonita.

E a renúncia sem a virtude inscrita não dura. Ela só adia o problema. Casarotto dá o exemplo de quem abre mão de um desejo, fica bravo, e desconta depois, "na bebida, no trânsito, na esposa". Quem se força a não comer o doce à tarde e ataca a geladeira à noite conhece isso por dentro.

Virtude nunca vem sozinha

Na Virtologia, nenhuma virtude trabalha sozinha, e a ordem segue a Pirâmide das 33 virtudes.

A Humildade abre. Sem ela, a pessoa nem enxerga a negligência, porque o orgulho desliga justamente o canal por onde o cérebro aprende com o erro. E sem ela a Abnegação vira plateia, a renúncia encenada para ser vista.

A Abnegação entra em par com a Humildade. As duas são as bases que deixam trabalhar todo o resto, e são as únicas que mexem diretamente nos dois sistemas primitivos: a Humildade reprograma o orgulho, a Abnegação reprograma o egoísmo. Casarotto diz que as duas instalam marcadores somáticos antecipatórios, "o aviso de custo diante da reação orgulhosa e o marcador positivo diante do ganho futuro", de modo que disparem antes do apagão, e não depois. É exatamente o aviso que falta na miopia para o futuro.

Daí em diante, a combinação depende da forma que a negligência toma.

Quando ela é fuga, o celular, a comida, a compulsão, o "só mais um", a combinação canônica é a do vício, da compulsão, do impulso e do imediatismo: Humildade, Abnegação, Verdade, Brandura, Paciência, Responsabilidade e Aceitação.

Quando ela é o corpo abandonado, a combinação é a da doença, do corpo e da saúde: Humildade, Aceitação, Eternidade, Perseverança, Cuidado com o Corpo e Bom Humor. O Cuidado com o Corpo é do Desenvolvimento e exige antes a Humildade, a Aceitação e a Individuação. Sem Humildade, o corpo vira vitrine. Sem Aceitação, o corpo é rejeitado. Sem Individuação, o corpo é o que o grupo aprova.

E para o tom com que você fala consigo, que é o que impede o abandono de virar tirania, Casarotto aponta o Não Julgamento, a Paciência e a Busca do Melhoramento. A relação consigo cura, nas palavras dele, "quando a firmeza se une à Brandura: nem abandono, nem tirania". Essas também vêm depois da base. Quem pula etapas produz virtude encenada.

Uma prática para esta semana

Dar voz ao amanhã. A negligência ganha porque o custo futuro chega com peso zero. A prática é dar peso a ele antes da hora em que a decisão acontece.

  1. Escolha uma negligência só, e concreta. Não "cuidar mais de mim". Algo como o exame que eu adio, a caminhada das sete, dormir antes da meia-noite.
  2. Nomeie o alívio. Quando chega a hora, o que você faz no lugar, e do que esse lugar te poupa? Do cansaço, do medo do resultado, do tédio, do vazio do fim do dia. Escreva em uma linha. Enquanto o alívio não tem nome, ele decide sozinho.
  3. Escreva uma frase de "se, então". Se der onze da noite, eu vou para a cama sem o celular. Se eu pegar o "é só um pouco" diante de um sinal do corpo, eu vou tratar como se não fosse. A frase tem que ser sua, com as suas palavras, para a sua situação.
  4. À noite, antes de dormir, escreva quatro coisas: o que pedia cuidado hoje, o que você fez, o que disparou, e o que fará exatamente da próxima vez. Sem punição e sem elogio. Se a punição aparecer, repare: é o orgulho voltado para dentro querendo consertar o estrago do egoísmo voltado para dentro. Os dois juntos não cuidam.

Um aviso sobre o passo dois. O alívio quase sempre parece merecido. "Eu trabalhei o dia inteiro, eu mereço." Pode até ser verdade, e descanso de verdade é necessidade, não fuga. A diferença aparece no dia seguinte: o descanso que regenera deixa você melhor, o alívio que foge deixa o estrago maior.

O que muda quando muda

O alívio não deixa de chamar. A vontade de ficar no sofá continua aparecendo, o celular continua no bolso. O que muda é que o amanhã passa a ter voz na hora da decisão. O aviso que antes chegava só depois, em forma de culpa ou de sintoma, começa a chegar antes.

O marcador que Casarotto dá para o Cuidado com o Corpo é simples de observar: você percebe o estado do corpo antes de ele virar sintoma. O cansaço é notado antes da doença. A tensão, antes da dor. Para a Abnegação, o marcador é o outro passar a ter agenda própria na sua fala. Na leitura que propus aqui, o equivalente seria o seu eu de amanhã ganhar agenda própria nas suas escolhas de hoje.

Talvez seja esse o ganho mais concreto de entender a negligência como egoísmo. Enquanto ela parece falta de força de vontade, você se culpa e não muda. Quando você vê que é o mesmo "primeiro eu me garanto", só que com o futuro do lado que perde, dá para fazer alguma coisa a respeito.

Se o descuido consigo passou do adiamento para algo mais pesado, como não conseguir se levantar, deixar de comer ou de se lavar, perder o interesse por tudo ou pensar em se machucar, isso não é questão de disciplina. Pode ser sinal de depressão ou de outro quadro que precisa de cuidado médico. Procure um profissional de saúde. Pedir ajuda é, nesse caso, o primeiro ato de cuidado consigo.

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