A recaída não apaga o caminho
Meses sem usar, e numa noite tudo volta. Na manhã seguinte, quem recaiu e quem ama essa pessoa costumam chegar à mesma frase: foi tudo em vão. Essa leitura é a parte mais perigosa da recaída, e ela pode ser trocada.
Você ficou seis meses sem usar. Ou um ano, ou dois. Contou os dias, voltou a dormir, viu o olhar da sua família mudar devagar. E numa noite qualquer, voltou. Agora é a manhã seguinte, e uma frase só ocupa a cabeça: foi tudo em vão.
Ou talvez você seja a mãe, o pai, a esposa, o irmão que descobriu. Talvez ele tenha contado, talvez você tenha achado. E você sentiu tudo de uma vez: raiva, medo, decepção, a vontade de gritar, a vontade de desistir, a vontade de voltar a vigiar cada passo.
Este texto é para as duas pessoas, e começa com o que ele não é. Ele não é sobre culpa. Na Virtologia, de Eduardo Casarotto, a dependência não é fraqueza de caráter nem falta de amor pela família. É um registro que o cérebro aprendeu de tanto repetir, sustentado por dois sistemas antigos que todo ser humano carrega: o orgulho, que precisa ter importância, e o egoísmo, que põe o próprio alívio na frente. A pessoa com dependência não é pior do que ninguém. Ela está com esses dois sistemas no comando. E a família que recebe a notícia também está dentro de um sistema, e não é a causa dele.
Primeiro o corpo
Antes de qualquer reflexão, existe uma questão de vida. Depois de um tempo sem usar, a tolerância do corpo cai. A dose que a pessoa usava antes pode, agora, parar a respiração.
Se alguém está difícil de acordar, muito confuso, respirando devagar ou com dificuldade, ou em convulsão, ligue para o SAMU, no 192, e siga as instruções do atendente. Respiração irregular e suspiros isolados também são sinais graves, e não são respiração normal. Fique por perto, se houver segurança, até o socorro chegar. E avise a equipe que acompanha o tratamento no mesmo dia.
Só depois de o corpo estar seguro é que faz sentido conversar sobre o que aconteceu. A ordem importa. A recaída é, antes de tudo, um momento de risco físico. Só depois ela vira assunto de caderno.
O caminho que fica
A frase da manhã seguinte, "foi tudo em vão", parte de uma ideia errada sobre como o cérebro muda.
Casarotto usa uma imagem simples. Uma estrada de terra, de tanto passar caminhão, vira autoestrada, e o cérebro passa a ir por ela sem pensar. É isso que o uso repetido faz. Mas o mesmo princípio vale para o outro lado: o caminho novo, repetido todos os dias, também vira estrada, ao lado da antiga. Os meses sem uso construíram esse caminho. Ele não some numa noite.
Fino não quer dizer inexistente. Quer dizer que, naquele ponto, naquela pista, naquele estado, o caminho antigo ainda pesou mais. Isso é uma informação preciosa, e ela só aparece no dia em que alguma coisa dá errado.
Escrevi sobre um parente próximo dessa experiência em Você não tem tecla delete: a reação emocional antiga que volta num almoço de domingo, depois de anos de trabalho. O fundo é parecido, porque o registro antigo enfraquece e não é apagado. A diferença é que, na dependência, há uma substância agindo sobre o corpo, e por isso há risco físico, abstinência e um querer que o uso repetido deixou mais forte. Por isso a recaída do uso pede cuidado médico e uma rede de apoio, e não só reflexão.
Sentença ou informação
O cérebro funciona como uma máquina de previsão. Ele aposta o tempo todo no que vai acontecer e só corrige o próprio modelo quando a aposta falha. Nessa hora, ele emite um sinal de erro: a marca de que a previsão não deu certo. O neurocientista Stanislas Dehaene, que estuda como o cérebro aprende, descreve esse sinal como um dos pilares de toda aprendizagem (Dehaene, 2018). Quem o detecta é o córtex cingulado anterior, uma região no meio da parte da frente do cérebro, que funciona como um alarme de "isso não saiu como eu esperava". Sem esse sinal, o cérebro não aprende. Só confirma o que já fazia.
Depois de uma recaída, o sinal de erro é sempre o mesmo. O que muda é a leitura que se faz dele. E há duas.
A primeira leitura transforma o erro em identidade. "Eu sou assim." "Eu não tenho jeito." "Nunca vou conseguir." É uma sentença. E a sentença dói tanto que pede anestesia. Os pesquisadores Marlatt e Gordon deram nome a esse fenômeno: o efeito da violação da abstinência (Marlatt e Gordon, 1985). É o raciocínio do "já que estraguei tudo, tanto faz". É a leitura que transforma a recaída de uma noite na recaída de uma semana.
A segunda leitura transforma o erro em informação. "O que disparou?" "O que eu faço diferente da próxima vez?" Essa leitura aciona o aprendizado. O sinal de erro chega aonde precisa chegar, e o cérebro corrige o caminho.
Ninguém escolhe a segunda leitura só porque decidiu ser positivo. O que decide qual leitura vence é a estrutura que a pessoa já construiu por dentro. E é aí que as virtudes entram, como você vai ver mais adiante.
A Virtologia acrescenta um ponto a esse achado da neurociência. O orgulho tem o hábito de interceptar o sinal de erro antes que ele chegue aonde precisa: esconde o erro, justifica, transfere para outra pessoa. "Eu só usei porque ela começou a briga." Enquanto o erro está sendo defendido, ele não está sendo lido. A Humildade é a virtude que mantém esse canal aberto, e é por isso que, na Pirâmide, ela vem antes de todas as outras.
A vergonha que prepara a próxima vez
Existe uma etapa do ciclo do vício que quase ninguém enxerga como parte dele: a vergonha.
Casarotto descreve o ciclo em seis estações. Lá embaixo, a Falta, aquele buraco de fundo que todo ser humano carrega. Depois, a pista que acende a vontade. Depois, o querer que puxa. Depois, o uso e o alívio. A quinta estação é a vergonha: passado o efeito, a pessoa se vê pelo olhar do filho, da mãe, do espelho, e o que ela vê é alguém sem valor. E a sexta é a Falta, agora maior, porque ao buraco antigo se somaram o dinheiro que sumiu, a confiança quebrada, a promessa não cumprida. Escrevi sobre o instante em que o freio sai do ar, que Casarotto chama de Apagão, em O instante em que seu cérebro te abandona.
A vergonha é uma ferida no orgulho, na necessidade de importância. Na leitura de Casarotto, ela dói no mesmo lugar em que dói a exclusão. E o que dói pede anestesia.
Há também uma forma mais silenciosa dessa ferida, que é a punição. Quem se sente culpado sente que precisa pagar, e quando o culpado é a própria pessoa, ela se pune. Casarotto chama isso de boleto infinito, porque não se paga nunca. Na dependência, o boleto tem uma forma conhecida: a recaída como castigo. "Eu não mereço ficar bem." E usa. Escrevi sobre esse mecanismo da culpa em A culpa que não te deixa em paz.
E tem um detalhe do cérebro que muda o jeito de agir na manhã seguinte. A pesquisadora Amy Arnsten mostrou que o estresse intenso prejudica o córtex pré-frontal, a região logo atrás da testa que pesa consequências e segura o impulso, e favorece respostas mais automáticas (Arnsten, 2009). A vergonha em carne viva é estresse intenso. Por isso a manhã do pânico não é a hora de analisar nada, e muito menos de se julgar. Primeiro o corpo seguro, depois a respiração mais calma, e só então o caderno.
O dia seguinte da família
Para quem ama a pessoa que recaiu, a notícia pode ser recebida de dois jeitos.
O primeiro é o do grito. "Eu sabia." "Você não tem jeito." "Depois de tudo o que eu fiz." É uma reação humana, de quem está esgotado. Mas ela humilha, e a humilhação é exatamente a ferida que puxa a próxima recaída. O segundo jeito é o da calma: receber a notícia, respirar, cuidar primeiro da segurança, e só depois conversar sobre o que aconteceu, de que apoio a pessoa precisa e como revisar o plano.
A calma não precisa de discurso. Pode ser algo como: "Eu estou com medo, e estou aqui. Você está seguro agora? Vamos avisar a equipe juntos?" E, no dia seguinte, a conversa sobre o que aconteceu e o que muda no plano. Calma também não quer dizer aceitar tudo. Os acordos da casa podem e devem acompanhar o risco. O que se evita é a humilhação, não o limite.
A família não causa a recaída. Mas a palavra da família entra no ciclo, e dá para escolher o que colocar ali. Falar a verdade sem humilhar já é muito.
O caderno do dia seguinte é de quem recaiu. A parte da família é não transformar a recaída em julgamento.
E há uma recaída de que quase ninguém fala: a da própria família. Ele recai, e você recai junto. Volta a olhar o celular dele. Volta a ficar acordada esperando o portão. Volta a esconder a bolsa, a ligar para os amigos dele, a revistar o quarto, a pagar para ele não passar pelo que precisa passar. Na régua das necessidades, a sua necessidade de controle volta para o 10. Essa recaída também se cuida: o seu grupo de apoio, o seu sono, a sua pessoa de confiança. E o seu caderno, no dia seguinte, com as mesmas perguntas, voltadas para você: o que disparou em mim, o que eu fiz, o que eu farei da próxima vez.
A família também carrega uma vergonha que raramente diz. Dos vizinhos, dos parentes, da igreja. Vergonha de sentir raiva do próprio filho, ou de desejar, num dia muito ruim, que tudo simplesmente acabasse. Esses pensamentos são humanos. São o sistema de sobrevivência de uma pessoa esgotada, e não fazem de você uma pessoa má. Fazem de você alguém que também precisa de cuidado. A saída que Casarotto propõe para a família é a mesma que ele propõe para quem usa: a Humildade. A família que consegue dizer, a quem precisa ouvir, "o meu filho é dependente, e nós estamos em tratamento" tirou da vergonha o poder de isolar. E família que não está isolada aguenta muito mais.
A esperança que sobe a cada mês limpo e despenca a cada recaída é outro peso, e ela merece um texto só dela: Quando você vive esperando a próxima notícia dele.
As perguntas que cada virtude faz depois do tropeço
No caminho que Casarotto propõe, o dia seguinte de uma recaída tem sempre a mesma base, por escrito: o que disparou, o que eu fiz, o que farei exatamente da próxima vez. E cada virtude acrescenta uma pergunta própria, que ilumina um pedaço diferente do que aconteceu.
Na Virtologia, as virtudes seguem a ordem da Pirâmide das 33 virtudes. Primeiro a Base do Tratamento, depois o Desenvolvimento, e o Topo como horizonte. Ninguém trabalha todas ao mesmo tempo. Com quem acompanha você, escolha a pergunta da virtude que você está trabalhando agora. As outras ficam para quando chegar a vez delas.
A Humildade abre a Base, e a pergunta dela é: que crítica, que humilhação ou que vergonha veio antes? Ela olha para o orgulho ferido, o motor mais comum da quinta estação.
A Abnegação entra em par com a Humildade, desde o começo, e pergunta: quem sumiu da minha decisão na hora em que eu fui? Ela olha para o egoísmo, o sistema que, no instante do uso, tira o outro da cena.
Depois vem o resto da Base, sem fila fixa entre elas. A Aceitação pergunta: contra o que eu estava brigando na hora em que fui? Muitas vezes era uma realidade que não dava para mudar, e a briga com ela pedia alívio. O Perdão pergunta: eu usei para me punir? Se a resposta for sim, Casarotto pede que a pessoa escreva uma frase só: eu estou perdoado. A Individuação pergunta o que eu estava tentando demonstrar com aquela escolha, e para quem. A Responsabilidade troca a pergunta da culpa, "por que eu sou assim?", pela pergunta da responsabilidade: o que, hoje, é meu para fazer? A primeira deixa a pessoa no chão. A segunda a leva ao telefone da equipe, ao grupo, ao caderno. Se o uso deixou um dano concreto, a reparação entra no plano, depois do atendimento, como resposta e nunca como castigo. O Estado de Certeza pergunta: qual foi a frase de dúvida que veio antes? "Não vou aguentar." "Não vai dar certo." E a Perseverança pergunta: quanto tempo eu levei entre cair e voltar, e o que me trouxe de volta? O marcador dela é exatamente esse: o intervalo entre falhar e tentar de novo encurta.
Casarotto junta três dessas virtudes da Base numa frase que serve de bússola para a manhã seguinte: aceito a recaída de ontem, tenho certeza do amanhã, e persevero hoje.
Só depois da Base vêm as perguntas do Desenvolvimento. O Cuidado com o Corpo pergunta: como estava o meu corpo nas vinte e quatro horas antes? Dormi? Comi? Estava com dor? Muita recaída começa em três noites sem sono. A Brandura pergunta: quanto tempo durou o intervalo entre a pista e o ato? Estime, escreva, e trabalhe para alargar esse intervalo. A Verdade pede que a recaída seja contada a quem cuida de você, no mesmo dia, se der. Ao grupo e à família, você conta quando decidir contar. Não é preciso confissão pública para receber ajuda. A Utilidade pergunta: como estava o meu tempo nas horas antes? Havia uma tarde vazia, sem nada decidido? E Honrar a Família pergunta: houve um encontro de família nas horas antes? Qual tom, qual silêncio, qual frase disparou?
No Topo, como horizonte, a Ajuda ao Próximo faz uma pergunta que fecha o mapa: na semana antes, eu estava junto de alguém ou estava sozinho? A minha ajuda era livre, ou era cobrança?
Para quem quer saber o conjunto que a Virtologia indica para o vício, a compulsão e o imediatismo, a combinação canônica é Humildade, Abnegação, Verdade, Brandura, Paciência, Responsabilidade e Aceitação, sempre com Humildade e Abnegação abrindo, e a Verdade, a Brandura e a Paciência depois da Base.
Trocar a sentença pela informação. A recaída já aconteceu. O que dá para decidir agora é como ela vai ser lida, e o caderno é o lugar onde essa escolha acontece.
- Garanta a segurança antes de tudo. Risco para a vida é emergência, na hora. A equipe que acompanha você é avisada no mesmo dia.
- Espere o alarme baixar. Não escreva no auge da vergonha. No dia seguinte, com o corpo mais calmo, o cérebro consegue ler o que aconteceu.
- Escreva três linhas. O que disparou. O que eu fiz. O que farei exatamente da próxima vez. "Exatamente" quer dizer concreto: vou ligar para a minha irmã antes de sair do trabalho na sexta, e não vou ser mais forte.
- Acrescente uma pergunta só. A da virtude que você está trabalhando agora, da lista acima.
- Repare em qual leitura apareceu. Se surgir "eu não tenho jeito", escreva a frase como ela veio. Ao lado, escreva a outra: o que disparou? Ver a sentença no papel já tira um pouco da força dela.
- Conte a quem cuida de você. Ao profissional, ao grupo, à pessoa de confiança. Para a família, quando você decidir.
- Marque o dia seguinte. Se um dia ficou sem marca, o caminho não se apaga. Você marca o próximo.
Se você é da família, faça o seu caderno também, com as mesmas três linhas, voltadas para você: o que disparou em mim, o que eu fiz, o que farei da próxima vez.
Fino não é inexistente
A manhã seguinte vai continuar pesada. A vergonha não desaparece porque alguém escreveu um texto sobre ela, e a família não deixa de sentir medo porque entendeu o ciclo. O que muda é o que se faz com o peso. Lido como sentença, ele empurra para o próximo uso. Lido como informação, ele mostra exatamente onde o caminho novo precisa de mais repetição.
Os meses sem uso continuam lá, inscritos no cérebro, mesmo no dia em que nada parece confirmar isso. A recaída mostrou um ponto fino. É sobre esse ponto que o trabalho continua, hoje.
Recaída depois de um tempo sem usar tem risco real de overdose, porque o corpo perdeu a tolerância. Diante de sonolência extrema, confusão, respiração lenta ou irregular ou convulsão, ligue para o SAMU, no 192. Parar de usar de uma vez também pode ser perigoso, sobretudo com álcool e calmantes, e a abstinência precisa de avaliação médica. No SUS, o CAPS AD é o serviço de referência para álcool e outras drogas, e os grupos de apoio para quem usa e para familiares ajudam a atravessar o dia seguinte. Se aparecerem pensamentos de se machucar ou de morrer, ligue para o CVV, no 188, a qualquer hora. Em situação de violência ou perigo imediato, ligue para o 190.
