Alquimia das Virtudes Alquimia das VirtudesBlog · por Isabella Becker
Abundância e Prosperidade

Otimismo não é pensamento positivo

O pessimista se acha realista, e na média erra mais. O otimista de verdade não nega o risco e não fica sonhando com o resultado. Ele age antes de ter certeza, e isso se treina.

Por Isabella Becker · Alquimia das Virtudes

O pessimista se acha realista. Na média, ele erra mais.

Essa frase incomoda porque o pessimismo se apresenta como maturidade. Eu só estou sendo pé no chão. Melhor esperar o pior e se surpreender. Se der errado, pelo menos eu estava preparado. Parece prudência. E muita gente que vive assim olha para o otimista com uma desconfiança educada, como quem olha para alguém ingênuo.

Só que o pessimismo cobra caro, e cobra em lugares que não aparecem de imediato: na decisão adiada, na proposta que não foi feita, no projeto que não começou, no dinheiro que não foi investido onde poderia render. E o pensamento positivo, que muita gente oferece como remédio, também não resolve. Às vezes piora.

O Otimismo da Virtologia não é nenhum dos dois.

O que o pessimismo está fazendo

Para entender o Otimismo, a Virtologia começa pelo contrário dele. O livro de Eduardo Casarotto define o caráter pessimista em uma frase: é a antecipação do sofrimento.

O mecanismo é simples. Eu antecipo a dor para não ser pego de surpresa. Se der ruim, estou preparado. Vou pedir um aumento? Ele não vai dar. Vou abrir o negócio? Não vai dar certo. Vou mandar a proposta? Vão recusar. A previsão ruim funciona como um amortecedor. Se o pior vier, ele já estava contado.

O livro chama isso de segurança comprada com a paralisia. A pessoa se protege da decepção, e o preço da proteção é não tentar. Como não tenta, não recebe nenhum dado que contradiga a previsão. E a previsão continua parecendo verdadeira.

Repare na frase de muitos pessimistas: pelo menos eu não me iludo. Ela esconde um cálculo que a Virtologia conhece bem. Quem antecipa o fracasso nunca é pego errado. E não ser pego errado é uma forma de proteger a própria importância. O livro diz isso com todas as letras: o pessimismo, o medo do futuro e a paralisia pela dúvida são expressões do orgulho.

O pessimista não é mais preciso

O que vem nesta seção é pesquisa de fora da Virtologia, que o próprio livro cita.

A neurocientista Tali Sharot passou anos estudando como o cérebro imagina o futuro. O achado mais conhecido dela é que o cérebro saudável tem um viés otimista: tende a superestimar um pouco as chances de coisas boas. E ela mostrou outra coisa, mais interessante para este texto. Na depressão, esse viés tende a desaparecer, e nos quadros mais graves ele se inverte: o futuro passa a ser imaginado pior do que as chances reais indicam. A perda do viés bom não deixou essas pessoas mais sábias. Deixou o futuro mais escuro do que ele é.

O livro tira dessa pesquisa a conclusão que abre este texto: o pessimista não está sendo realista. Está sendo menos preciso que a média, e pagando pela imprecisão com a paralisia.

O pensamento positivo também não funciona

Se o pessimismo trava, a resposta parece óbvia: pensar positivo. Imaginar o resultado, visualizar o sucesso, mentalizar a conquista. Uma parte grande da cultura de autoajuda vive dessa ideia.

A psicóloga Gabriele Oettingen, da Universidade de Nova York, testou isso por mais de vinte anos. Esta seção também é pesquisa de fora da Virtologia. Em um dos estudos, ela acompanhou mulheres num programa de emagrecimento. As que mais fantasiavam um resultado bonito perderam menos peso do que as que imaginavam o caminho com dificuldades. Em outro, estudantes que fantasiavam muito com o emprego dos sonhos receberam, dois anos depois, menos ofertas de trabalho e salários mais baixos. Em um terceiro, a pesquisadora mediu a pressão arterial durante a fantasia positiva e viu a energia do corpo cair, como se ele já tivesse chegado.

A explicação de Oettingen é que a fantasia positiva entrega ao cérebro uma prévia da recompensa. O cérebro relaxa como se a meta estivesse cumprida. E quem relaxa antes da hora não se mexe.

Vale dizer o tamanho do que essa pesquisa mostra. Ela é sobre fantasia, não sobre esperança. Imaginar um bom resultado não faz mal em si. O que atrapalha é ficar só na imagem, sem olhar o obstáculo e sem agir. É exatamente o ponto em que a Virtologia separa o Otimismo do pensamento positivo.

O que é Otimismo para a Virtologia

O livro define o Otimismo por três palavras: positividade, contentamento e coragem. As três precisam de explicação, porque nenhuma significa o que o senso comum entende.

Positividade não é ver tudo bonito. Todas as situações têm vários ângulos, e a positividade é escolher olhar também para o ângulo bom, sem fingir que o ruim não existe. O livro diz que ser negativo ou positivo diante das coisas é escolha.

Contentamento não é conformismo. É parar de se queixar. Muita gente se queixa de tudo e não faz nada para mudar, e o livro chama a queixa constante de posição psíquica infantil. Contentar-se não é aceitar qualquer coisa. É sair da queixa para poder agir.

Coragem é o ponto mais interessante. A coragem não é uma das trinta e três virtudes. Ela mora dentro do Otimismo, junto com o Estado de Certeza e a Perseverança. O livro é direto: o cara é medroso? Põe Estado de Certeza, Perseverança e Otimismo nele, e ele vira um leão.

O livro separa o Otimismo do pensamento positivo numa frase:

Antecipo o desfecho positivo possível sem negar a dificuldade real.

O Otimismo não nega o risco. Ele elabora o cenário bom com a mesma nitidez com que o pessimista elabora o ruim. E então age na direção dele. Sem a ação, o Otimismo fica incompleto. O livro chama essa forma incompleta de otimismo passivo, otimismo de pensamento sem ação. É o pensamento positivo com outro nome.

O marcador: o que aparece primeiro

O livro dá um teste simples para saber se o Otimismo entrou:

Diante de um problema, aparece primeiro o que fazer.

Pense na última notícia ruim que você recebeu sobre dinheiro. Uma conta inesperada, um cliente que cancelou, um investimento que caiu. O que veio primeiro na sua cabeça? Se foi o cenário de desastre, o Otimismo ainda não está instalado. Se foi a pergunta o que dá para fazer agora, ele está.

O marcador não pede que você não sinta medo. Pede que o medo não seja a primeira coisa a decidir.

O que está acontecendo no seu cérebro

O livro descreve o Otimismo como uma reorganização de três redes do cérebro, e vale ver de forma simples o que cada uma faz.

A Rede de Modo Padrão é a rede que imagina, que conta a história de você e que simula o futuro. No pessimismo crônico, ela simula quase sempre cenários ruins. Cada simulação ruim fortalece o circuito, e o circuito fortalecido produz mais simulações ruins. No Otimismo, ela aprende a simular os dois lados: o que pode dar errado e o que pode dar certo.

A Rede de Saliência é a que decide o que merece atenção. No pessimista, ela está treinada para pegar sinais de risco e deixar passar sinais de oportunidade. O livro descreve isso como possibilidades que estão ali, objetivamente, mas ficam invisíveis. No Otimismo, ela se redistribui. Quem passa por essa mudança costuma descrever do mesmo jeito: comecei a ver oportunidades onde antes eu via só problemas.

A Rede Executiva Central é a que planeja e executa. É nela que o livro localiza a Perseverança como parte do Otimismo: a capacidade de sustentar a ação apesar da incerteza.

Por baixo dessas redes, há duas peças que explicam por que o pessimismo cansa tanto. A amígdala, que é o alarme, dispara a cada pensamento sobre um futuro incerto. Por isso pensar no futuro dá aperto no peito, e a pessoa passa a evitar pensar. E o estriado ventral, o centro da antecipação de recompensa, deixa de responder a recompensas distantes. A dopamina vai toda para o prazer imediato: a compra, a comida, a rede social. Projetos longos ficam sem combustível. O livro chama isso de incapacidade de sustentar projetos longos, e diz que ela se reverte com a prática.

Por que o Otimismo não pode ser a primeira virtude

Na Virtologia, o Otimismo é uma virtude do Desenvolvimento, e não da Base. Ele fica no meio da Pirâmide das Virtudes, que é a ordem em que elas se constroem.

O livro é muito claro sobre o que acontece quando alguém tenta treinar Otimismo cedo demais. Ele nomeia três falhas:

Tentar o Otimismo sem essa base, diz o livro, produz quase sempre uma versão doente da virtude: o otimismo performado, o cego ou o defensivo. Por isso a combinação que a Virtologia define para o desenvolvimento, a prática e as transições de fase da vida traz o Otimismo acompanhado:

  1. Humildade, a base de tudo.
  2. Aceitação, para olhar a realidade como ela é.
  3. Estado de Certeza, para agir sem garantia. O livro chama o Otimismo de par do Estado de Certeza: o Estado de Certeza diz eu não preciso saber; o Otimismo completa e provavelmente vai dar certo.
  4. Perseverança, que o livro considera parte integral do Otimismo.
  5. Otimismo, que vem depois dessas.
  6. Busca do Melhoramento, que fecha a combinação. Ela pede antes a Humildade, a Perseverança e também o Perdão.

Otimismo sem Estado de Certeza antes não se sustenta. É a ordem, e não o entusiasmo, que faz a virtude durar.

O Otimismo e o dinheiro

Por que este texto está numa série sobre prosperidade? Porque o pessimismo é uma das formas mais caras de escassez.

Pense em quanto custa uma decisão adiada. O curso que você não fez há três anos. O preço que você não reajustou. A conversa sobre salário que ficou para depois. O negócio que continua no papel. O livro descreve o pessimismo crônico exatamente assim: uma coleção de decisões importantes adiadas por anos, cada uma com sua justificativa, e o custo somado de todas elas.

E existe o outro lado. O otimismo cego também custa. O investimento feito sem olhar o risco, a dívida assumida porque o mês que vem vai ser melhor, o negócio aberto sem plano. Na Virtologia, isso não é excesso de Otimismo. É Otimismo sem Aceitação e sem Humildade.

O Otimismo maduro fica no meio. Ele olha o risco, faz a conta, e decide. Depois persevera. E repete.

O Otimismo não atrai nada

Numa série sobre prosperidade, é preciso dizer isso com clareza, porque a palavra otimismo anda muito colada à ideia de atração. Vibrar, mentalizar, pedir ao universo e esperar o dinheiro chegar.

A Virtologia se separa dessa leitura de forma explícita. No capítulo sobre prosperidade, o livro diz que desejar, torcer e vibrar para que o dinheiro venha não produz prosperidade, porque o desejo, sozinho, não atrai nada. O que prospera é a responsabilidade em ação. A forma concreta disso tem um nome simples: trabalho.

O livro chama o Otimismo de virtude-chave da Lei da Vibração, uma das vinte e duas Leis da Vida. E explica o que essa lei significa: o estado emocional de fundo de uma pessoa funciona como um tom de base, e o medo e a raiva prendem a pessoa às reações mais primitivas. Lida sem ingenuidade, diz o livro, essa lei não premia o desejo. Premia o estado e a ação alinhados. Não o que se torce, mas o que se faz a partir de uma postura coerente.

Há outra lei que ajuda a ver o Otimismo funcionando, a Lei do Observador. Quem vigia ameaças encontra ameaças. O pessimista olha o futuro procurando o risco. O otimista olha procurando o caminho. Cada um encontra o que procura, não por mágica, mas porque a atenção decide o que entra no campo de visão.

Como o Otimismo se treina

O livro descreve três exercícios para essa virtude e acrescenta um quarto, de Perseverança. Todos são simples de entender.

O primeiro é a reformulação da queixa. Fazer a lista das reclamações do dia e, para cada uma, escrever uma frase positiva equilibrada. Não uma frase falsa. Uma frase que também seja verdade. O cliente cancelou continua verdade. E agora eu tenho horário para prospectar dois novos também é.

O segundo é a meditação de enfrentamento. Alguns minutos por dia imaginando uma situação difícil e você atravessando ela bem. Repare na diferença para a fantasia que Oettingen estudou: não é imaginar a chegada, é imaginar o caminho, com o obstáculo dentro.

O terceiro é a concentração nas oportunidades. Diante de um obstáculo, procurar de propósito a possibilidade que ele também traz.

O quarto, de Perseverança, é a decisão adiada. Identificar uma decisão que você vem empurrando e tomá-la num prazo curto. O livro insiste que se comece pequeno. Uma decisão pequena tomada em uma semana ensina ao cérebro mais do que uma grande planejada por anos.

O livro também é honesto sobre o tempo: semanas para os primeiros gestos, meses para a rede reorganizar o padrão, de um a três anos para a virtude se tornar segunda natureza.

Uma prática para esta semana

Uma prática para esta semana

A decisão adiada. Sete dias para mostrar ao cérebro que dá para agir antes de ter certeza.

  1. Liste três decisões de dinheiro que você vem adiando. Um preço, uma conversa, uma conta a organizar, um curso, um investimento.
  2. Escolha a menor delas. A que dá para resolver em sete dias.
  3. Escreva dois cenários. O que pode dar errado, e o que você faria se desse. O que pode dar certo, com o mesmo nível de detalhe.
  4. Tome a decisão até o fim da semana. Sem esperar a certeza que não vai chegar.
  5. Todas as noites, escreva uma queixa do dia e, ao lado, uma frase que também seja verdade. No fim da semana, releia as duas colunas.

Para continuar

Este texto faz parte de uma série sobre prosperidade. O primeiro, Prosperidade não é um problema de dinheiro, mostra as sete virtudes que eu uso no meu treino de prosperidade, na ordem da Pirâmide. O Otimismo é a última delas, e agora dá para entender por quê.

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