Alquimia das Virtudes Alquimia das VirtudesBlog · por Isabella Becker
Abundância e Prosperidade

Quando o sucesso do outro parece tirar algo de você

A promoção do colega não mexeu no seu salário, e mesmo assim estragou a sua semana. A inveja faz uma conta escondida, e essa conta é feita de escassez.

Por Isabella Becker · Alquimia das Virtudes

A notícia de que um amigo ganhou dinheiro pode doer mais do que a notícia de que você perdeu.

Parece exagero até acontecer. O colega é promovido. A amiga compra a casa. O irmão abre o negócio e dá certo. Nada mudou na sua conta, no seu cargo ou na sua casa. Mesmo assim, alguma coisa aperta. Vem um desconforto difuso, um silêncio meio comprido antes do parabéns, uma frase que escapa logo depois: também, com o pai que tem.

Quase ninguém chama isso pelo nome. O nome é inveja, e ela tem uma lógica que vale conhecer, porque ela não fica só no humor. Ela mexe no que você faz com o seu próprio dinheiro.

O que a pesquisa mediu

O que vem nesta seção não é Virtologia. É pesquisa de economia e de neurociência, e ela mostra que essa reação aparece em gente de todo tipo.

Em 2005, o economista Erzo Luttmer cruzou dados de renda e de bem-estar de milhares de pessoas nos Estados Unidos. Ele comparou gente com a mesma renda que morava em vizinhanças diferentes. O resultado: quanto mais os vizinhos ganhavam, menos feliz a pessoa dizia estar, mesmo com o próprio salário igual. O dinheiro do vizinho pesava no humor como se fosse uma perda.

Em 2009, um grupo de pesquisadores japoneses liderado por Hidehiko Takahashi pôs voluntários num aparelho de ressonância e pediu que lessem histórias sobre pessoas mais bem-sucedidas do que eles. Quando a inveja aparecia, acendia uma região do cérebro ligada à dor, o cingulado anterior. Depois, os voluntários liam que aquelas mesmas pessoas tinham sofrido um revés. Aí acendia o estriado ventral, uma região ligada à recompensa. O detalhe mais incômodo veio no fim: quanto mais forte era o sinal de dor no primeiro momento, mais forte era o prazer no segundo.

Os dois estudos dizem a mesma coisa por caminhos diferentes. O cérebro trata o sucesso de quem está perto como ameaça, e trata a queda dessa pessoa como alívio. Não é teoria moral. Foi medido.

O que a Virtologia diz sobre a inveja

A pesquisa mostra o que acontece. A Virtologia, o sistema desenvolvido por Eduardo Casarotto, explica por quê.

Para a Virtologia, a inveja não é um sentimento à parte. Ela é desejo. O livro descreve o cálculo com uma franqueza que incomoda: a inveja é puramente um desejo, e no cérebro existe uma conta de que, se você destruir o outro, vai ficar com o que ele tem. Essa conta é inconsciente. Ninguém pensa vou destruir meu amigo para ficar com o carro dele. Mas o cérebro primitivo faz a conta assim mesmo.

A gente não inveja só objetos. A gente inveja estados. O livro dá o exemplo de uma xícara. Eu tenho uma xícara e estou feliz com ela. Outra pessoa olha e diz eu também queria. Ela não quer a xícara. Quer o estado de felicidade. Por isso a promoção do colega dói mesmo quando você nem queria aquele cargo. O que dói é a satisfação, a segurança e a importância que ele parece ter ganhado.

A crítica é uma forma de destruição. E normalmente ela vem motivada pela inveja.

O caminho da inveja, diz o livro, é destruir o portador do objeto desejado. E o caminho mais comum de destruição é a crítica. Por isso a crítica aparece tão rápido depois de uma boa notícia alheia. Ela não é uma avaliação. É a inveja tentando derrubar quem subiu.

Por que é uma conta de escassez

A inveja só faz sentido num mundo em que existe pouco. Se ele ganhou, sobrou menos para mim. Se ela chegou lá, a vaga fechou. A conquista do outro vira prova de que o bolo diminuiu. Pesquisadores que estudaram dezenas de países chamam essa crença de crença no jogo de soma zero: a ideia de que o ganho de um é sempre a perda de outro. Em muitas situações da vida, ela é falsa. O cliente que o seu colega conquistou não era seu. A casa que a sua amiga comprou não estava reservada para você.

A Virtologia explica de onde vem essa conta. No cérebro existe o que ela chama de orgulho: um sistema antigo, nascido da vida em bando, que mede a posição. Durante quase toda a história da espécie, a posição no grupo decidia quem comia primeiro e quem era protegido. Por isso o orgulho lê o mundo como ranking. Quando alguém perto de você sobe, você desce na tabela, mesmo sem ter perdido nada. A dor é real. A perda não.

E existe o segundo sistema, que a Virtologia chama de egoísmo: a pergunta o que isso me dá chegando sempre primeiro. Para o egoísmo, o sucesso do outro só tem valor se render algo para mim. Como não rende, ele é só um lembrete do que eu não tenho.

Os sinais de que a conta está rodando

A inveja raramente aparece como inveja. Ela aparece como opinião, como senso de justiça, como piada.

Esses sinais são o sistema antigo funcionando como foi feito para funcionar. E esse funcionamento cobra um preço.

O corpo sente antes de você pensar

Antes da crítica, antes da frase sobre a injustiça da vida, existe um momento físico. Quem presta atenção consegue pegá-lo.

Ele costuma ser rápido. Um aperto no peito ou no estômago enquanto a boa notícia está sendo contada. O rosto que endurece um pouco. Uma vontade de mudar de assunto. Às vezes, uma pontada de cansaço sem motivo, como se a conversa tivesse ficado pesada. O corpo registrou a conquista do outro como uma perda sua. É o lado sentido daquilo que Takahashi mediu no laboratório.

A Virtologia trata esses sinais do corpo como informação, e não como sentença. O livro chama de marcadores somáticos as respostas do corpo que disparam antes do raciocínio, gravadas por experiências antigas. Eles não vão sumir, e nem devem. O que se treina é outra coisa: perceber o sinal, dar nome a ele e não agir automaticamente a partir dele. Entre o aperto e a crítica existe um intervalo pequeno. É nesse intervalo que o trabalho acontece.

Admitir não é se acusar

Muita gente resiste a reconhecer a inveja porque a palavra soa como acusação. Inveja parece coisa de gente mesquinha, e ninguém quer ser essa pessoa. Então o sentimento é empurrado para baixo, e de lá ele continua operando, agora disfarçado de opinião.

Por isso vale separar duas coisas. Sentir inveja é o sistema antigo funcionando. Ele está em todo mundo, porque todo mundo descende de quem disputou posição no grupo e sobreviveu. O que se faz com a inveja é escolha. A crítica, o atalho, o gasto para não ficar atrás e o desprezo são escolhas, mesmo quando parecem automáticas. E escolha se treina.

Admitir eu senti inveja é, na verdade, o primeiro gesto de Humildade nesse tema. É reconhecer o próprio tamanho sem se diminuir e sem se inflar. Quem não consegue admitir fica preso a duas saídas ruins: ou nega e critica, ou se acusa e se esconde. As duas mantêm a conta da escassez funcionando.

O que a inveja faz com o seu dinheiro

A inveja não fica no humor. Ela entra nas decisões, e o livro mostra por onde.

O primeiro caminho é o atalho. No capítulo da Honestidade, o livro descreve a inveja como uma das raízes da desonestidade, e a menos vista: o desconforto diante do que o outro tem faz a pessoa achar que tem direito a um atalho. Eu também mereço. A sonegação pequena, o produto vendido acima do que vale, a promessa feita sem intenção de cumprir. E o livro liga essa raiz ao estudo de Takahashi: quanto mais a inveja dói, maior o prazer quando o invejado perde, e mais tentador fica o atalho.

O segundo caminho é o gasto para não ficar atrás. A casa nova do amigo vira a reforma que você não tinha planejado. A viagem do colega vira a sua viagem no cartão. Não é desejo de ter. É desejo de não descer na tabela.

O terceiro caminho é o desprezo. Quando não dá para alcançar, a saída é desqualificar. Dinheiro não traz felicidade. Gente rica é tudo igual. O livro chama isso de projeção: associar o dinheiro a pessoas más para justificar a própria falta. E é seco sobre o resultado: ninguém prospera naquilo que, no fundo, condena.

O quarto caminho é a energia que vai embora. O tempo gasto vigiando, comparando e criticando é tempo que não foi para o próprio trabalho. A inveja ocupa a cabeça do mesmo jeito que a falta ocupa. É escassez de outra forma.

A pergunta que troca o caminho

O livro propõe uma ferramenta simples, e ela está no capítulo do Não Julgamento, na forma de frase de gatilho:

Se eu me pegar criticando alguém, eu vou perguntar: o que ela tem que eu queria?

Essa pergunta faz uma coisa precisa. Ela tira o foco do outro e devolve para você. Enquanto a atenção está no defeito do outro, o desejo fica escondido, e um desejo escondido não vira ação. Quando você nomeia o que queria, o desejo aparece. E desejo que aparece pode virar plano.

Às vezes a resposta é concreta: eu queria aquele cargo. Então a pergunta seguinte é o que eu estou fazendo para chegar lá? Às vezes a resposta é um estado: eu queria a tranquilidade que ela parece ter. Então a pergunta seguinte é outra, e mais profunda: o que me falta, que eu estava cobrando dela?

As virtudes que desfazem a conta, e a ordem delas

A Virtologia não trata a inveja com uma virtude só. Ela trabalha por combinações, e o livro define a combinação para o eixo do orgulho, da vaidade, do poder, da competição e da inveja:

  1. Humildade, a âncora. É ela que deixa você admitir eu queria isso sem precisar derrubar quem tem.
  2. Abnegação, a par da Humildade na Base da Pirâmide. Tira o o que isso me dá do primeiro lugar. Sem ela, o sucesso do outro só serve como medida do que falta para mim.
  3. Verdade e Não Julgamento. A Verdade para dizer a si mesmo o que está sentindo, e ela pede a Humildade e a Responsabilidade antes. O Não Julgamento para parar a crítica antes que ela vire hábito, e ele pede a Humildade.
  4. Igualdade e Fraternidade. As duas são virtudes do topo da Pirâmide, e só se instalam quando a Base e o Desenvolvimento estão de pé. É o ponto de chegada: o outro deixa de ser concorrente e volta a ser alguém como você.

E há um segundo conjunto, que o livro aponta especificamente para que a inveja não se crie dentro de você. São três virtudes juntas: Estado de Certeza, Gratidão e Responsabilidade. Cada uma ataca um pedaço da conta.

A ordem importa. Gratidão por cima de uma inveja sem Humildade vira gratidão de boca: que bom para ele dito com o maxilar travado. Por isso o trabalho começa pela Base. Primeiro admitir. Depois soltar a tabela. Só então agradecer.

O que muda quando a conta se desfaz

Ninguém deixa de sentir inveja de uma vez. O sistema antigo continua lá, e continua disparando. O que muda é o que acontece depois do disparo.

Quem trabalhou essas virtudes sente o aperto diante da boa notícia, reconhece, e faz a pergunta. O aperto passa mais rápido. O parabéns sai inteiro. E, com o tempo, aparece uma coisa que quem vive na conta da escassez não consegue ver: o sucesso de quem está perto amplia o seu mundo. A amiga que abriu o negócio sabe coisas que você não sabe. O colega promovido abriu uma porta que você nem sabia que existia.

A Virtologia tem um conceito para isso, que ela chama de holofote: só se deseja o que já se viu. Escrevi sobre ele em Você não deseja o que nunca viu. O sucesso do outro, olhado sem inveja, é mais uma possibilidade que entra no seu campo de visão.

Uma prática para esta semana

Uma prática para esta semana

Trocar a crítica pela pergunta. Sete dias observando a conta da escassez.

  1. Anote cada crítica que você fizer, em voz alta ou por dentro, sobre alguém que conseguiu alguma coisa. Só anotar, sem se julgar por isso.
  2. Ao lado de cada uma, responda: o que essa pessoa tem que eu queria? Pode ser um objeto, um cargo ou um estado.
  3. Escolha uma das respostas e escreva um passo concreto na direção dela. Pequeno, executável nesta semana.
  4. Dê um parabéns inteiro. Para alguém cuja conquista mexeu com você. Sem mas, sem ressalva, sem piada.
  5. No sétimo dia, releia a lista. Repare em quais críticas apareceram mais de uma vez. É ali que está o desejo que você ainda não assumiu.

Para continuar

Este texto faz parte de uma série sobre prosperidade. Se você ainda não leu, comece por Prosperidade não é um problema de dinheiro, que explica por que o meu treino de prosperidade começa pela Humildade e pela Abnegação.

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