Alquimia das Virtudes Alquimia das VirtudesBlog · por Isabella Becker
Relações

Quem convive com a dependência também adoece

Você não usa nada. Mas dorme mal há anos, vigia, cobre, explica, espera. Quem ama alguém com dependência vive dentro do mesmo sistema, e também precisa de cuidado. Não por ter causado nada, e sim por estar há tempo demais em modo de sobrevivência.

Por Isabella Becker · Alquimia das Virtudes

Você não usa nada. Mas dorme mal há anos. Acorda com o barulho da chave na porta, ou com a falta dele. Deixa o celular do lado do travesseiro. Olha o extrato do banco antes do café. Esconde a bolsa, liga para os amigos dele, inventa uma desculpa para a vizinha, chora no banheiro para ninguém ver. E quando alguém pergunta como você está, você responde falando dele.

Se você é mãe, pai, esposa, marido, filho ou irmão de alguém com dependência, este texto é seu. E ele começa por uma coisa que talvez ninguém tenha dito a você ainda: você também precisa de cuidado.

"Você está funcionando em modo de sobrevivência há tanto tempo que esqueceu que existia outro modo." — Eduardo Casarotto

Ninguém causou

Antes de qualquer outra coisa, uma frase que precisa vir primeiro, porque muita família lê qualquer texto sobre o assunto procurando a própria culpa. A dependência não se explica pela culpa de uma pessoa da família. Ela envolve uma história, condições de vida e de saúde, escolhas e acesso a cuidado. Na Virtologia, de Eduardo Casarotto, o vício também não é falta de amor nem fraqueza de caráter. A pessoa com dependência ama a família. O que aconteceu foi que o cérebro dela passou a dar à substância um valor maior do que a quase tudo.

O que este texto vai mostrar não é onde a família errou. É o que a convivência fez com quem convive, e o que dá para recuperar. Em alguns pontos vou falar do orgulho e do egoísmo da família, e isso não é acusação. Na Virtologia, orgulho e egoísmo são dois sistemas de sobrevivência que todo ser humano carrega, e eles aparecem em quem usa e em quem cuida, cada um do seu jeito. Não há lado bom e lado ruim. Há um sistema, com várias pessoas dentro.

Como a casa inteira adoece

Casarotto usa a palavra sistema porque a vida de um afeta a vida dos outros. Em muitas famílias, o uso passa a ocupar quase todas as conversas e decisões. O uso provoca vigilância. A vigilância leva ao segredo. O conflito faz alguém se afastar. Uma pessoa assume quase todo o cuidado, e outra deixa de pedir o que precisa.

O adoecimento de quem convive costuma aparecer em lugares parecidos:

Nada disso é exagero. É o que acontece com qualquer pessoa que vive anos em alerta.

O corpo de quem vigia

Existe um motivo de cérebro para você se sentir assim, e entender esse motivo ajuda a parar de se cobrar.

No fundo do cérebro, uma de cada lado, ficam duas estruturas do tamanho de uma amêndoa chamadas amígdalas. Elas funcionam como alarme: detectam ameaça e preparam o corpo para reagir, com o coração acelerado, a respiração curta e os hormônios do estresse correndo. Esse alarme foi feito para disparar e desligar. Quem convive com a dependência vive numa situação em que a ameaça não passa. Toda noite pode terminar num telefonema. Então o alarme quase nunca desliga.

E o alarme ligado tem um efeito que a família sente na pele. A neurocientista Amy Arnsten descreve o que o estresse intenso e sem saída faz com o córtex pré-frontal, a parte da frente do cérebro onde a gente para, pondera e escolhe: ele perde força, e as respostas automáticas ganham espaço (Arnsten, 2009). É por isso que a mãe exausta grita, paga, revista, cede, mesmo sabendo que aquilo não ajuda. Ela não está fraca. Ela está decidindo com o freio enfraquecido, de dentro de um cérebro em alarme há anos.

A Virtologia acrescenta uma peça a isso. Ela descreve a crença "ou eu controlo tudo, ou serei destruído" como aquilo que mantém a amígdala e o sistema do estresse em alarme. Quem convive com a dependência quase sempre carrega essa crença sem perceber. E ela tem lógica: por um tempo, vigiar parecia o único jeito de evitar o pior. O problema é que a vigilância não controla o uso de outra pessoa. Ela só mantém o seu corpo em guerra.

O que falta em quem cuida

Na Virtologia, cada pessoa tem 51 necessidades, e cada uma pode receber uma nota de 0 a 10. Abaixo de 4 é carência. De 4 a 7 é a zona de equilíbrio. Acima de 7 é excesso.

Casarotto dá um exemplo de como essa régua pode ficar em quem cuida. As notas são ilustrativas, e as suas dependem da sua experiência. Restauro, que é o descanso que recupera, em 2. Segurança em 3. Diversão em 2. Privacidade em 1. E Controle em 10. É o retrato de alguém que não descansa, não se sente seguro, não se diverte, não tem um espaço só seu e tenta, o tempo todo, segurar a vida de outra pessoa com as mãos.

E vale para a família a mesma regra que vale para quem usa: falta de necessidade básica não se interpreta, se regula. Ninguém reorganiza a própria vida, nem pratica virtude nenhuma, com o tanque vazio.

"Junto com a primeira virtude, desde o primeiro dia, você vai precisar dormir, comer, ter algum espaço seu, ter alguém com quem falar. Não é egoísmo. É engenharia." — Eduardo Casarotto

Há ainda uma camada mais delicada, e eu a trago com cuidado, porque não é o caso de todo mundo. Depois de anos nessa rotina, o papel de quem cuida pode ir ocupando o espaço de todos os outros, até virar o único lugar onde você se reconhece. Contei como isso acontece em A mãe que paga a dívida do filho está cuidando de quem?. A Virtologia descreve esse risco em quem cuida: quando todo o valor de uma pessoa está num papel só, perder o papel é perder o chão. Se é o seu caso, soltar vai doer de um jeito que você não espera, e a dor vai pedir para você voltar a segurar. Vale olhar para isso, sem culpa. Escrevi sobre o limite saudável de quem cuida em Cuidar do outro acalma quem cuida.

O que está nas suas mãos

Você não pode responder sozinho pela recuperação de outra pessoa. Mas existe uma parte do sistema que é sua, e ela pesa mais do que parece.

Uma revisão de estudos com famílias de pessoas que recusavam tratamento mostrou que o caminho que mais levou gente a se tratar foi um treino para a própria família mudar a forma de se relacionar com quem usa, chamado CRAFT, à frente dos grupos de apoio e do confronto (Roozen, de Waart e van der Kroft, 2010).

Mudar a sua parte não quer dizer que a sua parte causou o problema. Quer dizer que é a única parte que você governa. Na prática, ela passa por três trocas. Trocar o cuidado que gira em volta do uso pelo cuidado que gira em volta da pessoa, que é o tema de A mãe que paga a dívida do filho está cuidando de quem?. Trocar a ameaça e o pedido pelo limite, que é o que você faz, e não o que você exige dele, como está em Limite não é castigo, onde conto esse estudo em detalhe. E trocar o grito do dia da recaída pela calma que cuida primeiro da segurança, como escrevi em A recaída não apaga o caminho.

Nenhuma dessas trocas é abandono. A família continua garantindo a comida, a casa segura, o acesso ao tratamento, a escuta. Ninguém retira alimento, abrigo ou socorro para dar uma lição. E, diante de risco de vida, protege-se sempre. O que sai é o que sustenta o uso: o dinheiro solto, a mentira coberta, a dívida paga sem pergunta.

O caminho da família, virtude por virtude

A família também tem um caminho próprio, e ele não é uma versão menor do caminho de quem usa. É outro, para outro sistema. Na Virtologia, ele segue a Pirâmide das 33 virtudes: primeiro a Base do Tratamento inteira, depois o Desenvolvimento, e o Topo como horizonte. Nenhuma virtude trabalha sozinha, e nenhuma do Desenvolvimento se sustenta sem a Base por baixo.

A Humildade abre. Na família, o orgulho costuma ter três formas: a vergonha social ("o que os vizinhos vão pensar"), o saber ("eu conheço o meu filho, ninguém me ensina nada") e a importância pelo cuidado ("sem mim ele não sobrevive"). A Humildade, aqui, é pedir ajuda para você, e não só para ele. É dizer o nome do problema em voz alta a alguém de fora. E é também não cair no avesso do orgulho, o "eu fui uma péssima mãe, a culpa é toda minha", que parece humildade e é a mesma régua, só que na ponta de baixo. Nem heroína nem vilã.

A Abnegação entra em par com a Humildade, desde o começo. Para a família, que já abriu mão de quase tudo, ela não pede mais renúncia. Pede outra coisa: pôr o crescimento dele na frente do seu alívio de agora. Deixar a noite ficar ruim em vez de pagar para ela acabar. E pede, ao mesmo tempo, que os outros da casa voltem a ter lugar, e que você volte a existir. O marcador da Abnegação é o outro passar a ter agenda própria na sua fala. Na família, isso inclui o filho que não dá trabalho, o cônjuge, e você mesma.

Depois vem o resto da Base, sem fila fixa entre elas, e nenhuma pode ficar de fora.

A Aceitação começa pelo nome: ele é dependente, e isso é o que é. Ela passa pelo luto do filho imaginado, aquele que deveria ter sido, para que o filho real possa ser amado. E separa o que está no seu domínio do que não está. O uso de outra pessoa não está.

O Perdão tem dois endereços. Ele mesmo, pelo dinheiro que sumiu, pelas mentiras, pelas noites. E você, pelo que fez sem saber fazer melhor. Perdoar não é esquecer nem aceitar tudo. Em situação de violência, a proteção vem primeiro, e ninguém precisa forçar reconciliação, contato ou convivência para provar que perdoou. O marcador do Perdão é conseguir pensar na pessoa sem que o corpo reaja.

A Individuação é voltar a ser alguém além do papel de quem cuida. Ela responde à frase "quando ele melhorar, eu volto a viver" com um agora. Começa pequena: reconhecer uma necessidade sua e defendê-la com respeito. E inclui parar de decidir a vida da casa pelo que a igreja, os parentes ou a vizinha vão achar.

A Responsabilidade separa responsável de culpado. A pergunta da culpa é "onde foi que eu errei?", e ela deixa a pessoa no chão. A pergunta da responsabilidade é "o que é meu para fazer hoje?", e ela leva ao grupo, ao médico, ao limite, ao sono. O marcador dela é a fala passar a ser sobre futuro e soluções.

O Estado de Certeza troca a esperança que sobe a cada mês limpo e despenca a cada recaída por uma certeza que não depende da notícia de ontem. Não é negação nem garantia. É conseguir agir sem saber o resultado, e tirar a sua paz de dentro do resultado dele.

A Perseverança pede uma troca curiosa, porque a família costuma ser perseverante demais, só que no gesto errado. Ela persiste no salvamento, que não funciona. A Perseverança é continuar no caminho novo: o limite mantido no décimo dia com a calma do primeiro, o grupo na semana em que você não queria ir, o cuidado consigo no dia em que ele está mal.

Só com essa Base por baixo vem o Desenvolvimento. O Otimismo, que se apoia sobretudo no Estado de Certeza, retreina o olhar que passou anos procurando sinal de uso, e devolve a pergunta "o que você fez de bom hoje?". O Bom Humor devolve o riso a uma casa que parou de rir, com uma regra fixa: nunca fazer piada dele, só da situação e de si. Ele exige antes a Humildade, a Aceitação e o Perdão. A Gratidão vê o pequeno progresso dele e quem ficou invisível na casa, e exige antes a Aceitação e a Responsabilidade. Honrar a Família recentra a casa fora do vício e devolve a quem usa o lugar de membro, e não de caso. Ela exige antes a Aceitação, o Perdão e a Individuação. O marcador dela, para a família de quem tem dependência, é bonito de ver: uma conversa inteira de família em que ninguém falou do vício, e ninguém sentiu que estava faltando alguma coisa.

No Topo, como horizonte, fica a Ajuda ao Próximo. É a mãe que chegou desesperada ao grupo de familiares e, com o tempo, passa a receber as que chegam desesperadas depois dela.

Uma semana para devolver a você um lugar na sua vida

Cuidar da sua parte do sistema. Não é um plano para salvar ninguém. É um começo para tirar o seu corpo do alarme e voltar a existir dentro da sua própria casa.

  1. Faça a sua régua. Dê uma nota de 0 a 10 para cinco necessidades: descanso, segurança, diversão, privacidade e controle. Abaixo de 4 é carência, de 4 a 7 é a zona de equilíbrio, acima de 7 é excesso. A nota não é diagnóstico. Ela só mostra por onde começar.
  2. Escolha uma necessidade em carência e uma ação pequena. Se for o sono: deitar meia hora mais cedo, com o som do celular ligado e a tela virada para baixo, fora do alcance da mão. Dá para ficar alcançável sem ficar vigiando.
  3. Conte para uma pessoa de fora. Uma frase basta: meu filho é dependente, e eu estou cansada. Dizer em voz alta já tira da vergonha uma parte do poder de isolar.
  4. Solte uma vigilância. Uma só, que não envolva risco de vida. Antes de conferir, pergunte: isto está no meu domínio? Se não estiver, não confira hoje.
  5. Devolva um lugar a outra pessoa da casa. O filho que não dá trabalho, o cônjuge, os seus pais. Vinte minutos com ela, sem falar do problema.
  6. Procure ajuda para você. Um grupo de familiares, a Unidade Básica de Saúde, o CAPS AD. Para você, e não só para ele.
  7. À noite, escreva três linhas. O que disparou em mim hoje, o que eu fiz, o que farei da próxima vez. Sem punição e sem elogio.

Se a semana não sair inteira, ela não foi perdida. A ideia não é cumprir uma lista. É o seu corpo aprender, aos poucos, que existe outro modo além do alarme.

Cuidar de si não é traição

Muita mãe ouve "cuide de você" como se fosse um pedido para abandonar o filho. Não é. Uma pessoa que dorme, come, tem com quem falar e voltou a ter alguma vida própria decide melhor, aguenta mais, e consegue estar presente sem se dissolver. A presença dela vale mais do que a vigilância de antes.

A sua reconstrução não precisa esperar a recuperação de outra pessoa. Ela pode começar hoje, do tamanho que der, ao lado do cuidado com quem você ama.

Se houver violência ou ameaça contra você ou alguém da casa, proteja-se e ligue para o 190. Se a pessoa estiver muito sonolenta, confusa, respirando devagar ou em convulsão, ligue para o SAMU, no 192. Se ela bebe muito ou toma calmantes e vai parar de repente, leve antes a um médico, porque essa abstinência pode ser perigosa. No SUS, a Unidade Básica de Saúde e o CAPS AD orientam o tratamento de quem usa e acolhem também a família, e os grupos de familiares são gratuitos. E se, no meio do cansaço, aparecerem pensamentos de morte, seus ou dele, ligue para o CVV, no 188, a qualquer hora. Quem cuida também tem direito a ser cuidado.

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