Alquimia das Virtudes Alquimia das VirtudesBlog · por Isabella Becker
Bem-estar

Parar de beber não é ficar sóbrio

Parar de beber tem nome: abstinência. A sobriedade é outra coisa. Ela se constrói nos segundos antes do gole, nas horas vazias da tarde e no corpo que pede comida, sono e cuidado.

Por Isabella Becker · Alquimia das Virtudes

Você parou de beber. Faz semanas, talvez meses. E mesmo assim as tardes parecem longas demais, o sono não vem, a paciência acaba no primeiro não, e a vontade aparece de onde você menos espera. Quem está de fora comemora: "parou". Você sabe que parar foi só a primeira parte, e que a segunda ninguém explicou direito.

Parar de usar tem nome: abstinência. A sobriedade é outra coisa. É um modo de funcionar que a bebida ocupava e que agora precisa ser construído. Na Virtologia, de Eduardo Casarotto, essa construção acontece em três lugares bem concretos: os segundos antes do gole, as horas vazias do dia e o corpo que pede.

Antes de seguir, três ressalvas. A primeira é de segurança: este texto não é um guia para parar sozinho. Quem bebe muito todos os dias não para de uma vez sem médico, porque a abstinência de álcool pode causar convulsão e delírio. A segunda: quase tudo o que vem a seguir vale também para quem parou outra coisa, o cigarro, a aposta, outra droga. A terceira: ninguém aqui está sendo acusado. O tropeço faz parte do caminho de muita gente que saiu. E quando eu falar de orgulho e de egoísmo, falo de dois sistemas do cérebro que todo ser humano tem, não de defeitos de quem bebe.

O que a abstinência deixa para trás

O álcool funciona como um freio no cérebro. Ele reforça o sistema que acalma, o GABA, e segura o sistema que acelera, o glutamato. Por isso o primeiro efeito é a calma, a língua solta, o corpo que relaxa.

Só que o cérebro não aceita ficar freado. Se todo dia chega um freio de fora, ele compensa por dentro: diminui o próprio freio e aumenta o próprio acelerador. Essa compensação é a tolerância. E quando o álcool sai de repente, a compensação fica exposta. O freio de fora sumiu, e o acelerador de dentro continua no máximo. O motor dispara: tremor, coração acelerado, insônia e, nos casos graves, convulsão (Littleton, 1998).

Cerca de metade das pessoas com transtorno por uso de álcool tem sintomas de abstinência quando reduz ou para. Os sintomas começam em até oito horas depois que o álcool no sangue cai, chegam ao pico por volta de 72 horas e costumam melhorar entre o quinto e o sétimo dia. Numa parte delas aparecem convulsões ou delírio (Schuckit, 2014). E há um agravante descrito por Becker (1998): em muitas pessoas, cada abstinência é pior do que a anterior. Cada "parei e voltei" sem cuidado deixa a próxima parada mais perigosa. É por isso que a parada se planeja com um serviço de saúde.

Passados os primeiros dias, fica outra coisa. George Koob e Michel Le Moal (2001) chamaram de alostase o que acontece com o tempo: o ponto de ajuste da recompensa se desloca, e o "normal" daquele cérebro muda de lugar. Quem bebia há anos já não bebia para ficar bem. Bebia para não ficar mal. Quando para, esse mal-estar não vai embora junto com a garrafa. Fica ali por semanas, às vezes meses, sem a única coisa que aliviava. Escrevi sobre essa passagem do prazer ao alívio em Por que você continua fazendo o que já nem te dá prazer.

É exatamente aí que a abstinência sozinha cobra caro. Pede-se a uma pessoa que aguente um corpo em alarme na base da vontade, sem nada novo dentro. A sobriedade é o nome do que se constrói para que ela não precise aguentar sozinha.

Sobriedade é outra palavra para Brandura

Casarotto parte de uma observação sobre a própria palavra. Na Virtologia, a Brandura corresponde a temperança, do latim temperantia, que quer dizer guardar o equilíbrio: controle sobre as paixões, equilíbrio nas atitudes e nas decisões, nenhum excesso nos apetites. E sobriedade, na raiz, é isso.

"Repare na palavra sobriedade. A recuperação usa essa palavra para quem parou de usar. Mas sobriedade, na raiz, é temperança: equilíbrio nas atitudes e nas decisões. Parar de usar é a abstinência. A sobriedade de verdade é a Brandura." — Eduardo Casarotto

A Brandura trabalha a velocidade com que a pessoa funciona: na fala, no pensamento e na ação. E a pessoa com dependência foi treinada no imediato. A substância é o alívio agora. Não daqui a uma semana, não quando a situação se resolver. Agora. Anos disso ensinaram o cérebro a não tolerar intervalo nenhum. Qualquer espera fica insuportável, qualquer frustração precisa ser resolvida na hora, qualquer desconforto precisa sumir já.

Essa pressa não vai embora quando a bebida vai. Ela muda de objeto. Vira pressa de recuperar a confiança da família, de arrumar emprego, de ter dinheiro de novo, de "estar curado". E a pressa tem a mesma estrutura do uso: querer o resultado agora. Casarotto descreve muitas recaídas nascendo assim, na pessoa que, com três meses sem beber, quer que tudo esteja como antes e desiste quando vê que não está. A vida que se desfez em anos não se refaz em semanas. E não precisa. Ela se refaz no ritmo dela.

Brandura não é passividade. Casarotto separa duas cautelas que de fora parecem iguais. A cautela do medo é o alarme ligado, varrendo tudo por ameaça: lenta para agir e rápida para explodir. A cautela da Brandura é o contrário: o alarme baixo e o pensamento deliberado ligado. Lenta para reagir e rápida para resolver.

Os segundos antes do gole

No cérebro, há uma disputa que todo mundo conhece por dentro. A amígdala, um par de núcleos no fundo do cérebro, um de cada lado, dispara o alarme. O córtex pré-frontal, logo atrás da testa, é a região que pesa as consequências e escolhe. Quando a resposta sai antes do pensamento, quem respondeu foi o alarme. Sob estresse, cansaço ou fome, a parte que pondera é a primeira a perder força, e a que reage ganha. Expliquei esse instante, que a Virtologia chama de apagão, em O instante em que seu cérebro te abandona.

A Brandura não tenta vencer o alarme na força. Ela fabrica um intervalo onde antes não havia nenhum. O treino que Casarotto propõe é quase banal: contar até cinco. A pessoa falou: 1, 2, 3, 4, 5. Só então você responde. Diante da pista de uso, os mesmos cinco segundos antes de qualquer decisão. Cinco segundos é a espera mais curta que existe, e a que mais custa.

Ele propõe também os exercícios de espera, que parecem pequenos demais para importar: esperar a música acabar, não pular a abertura da série, não apertar o próximo episódio, não acelerar o vídeo. É o mesmo músculo do intervalo, treinado onde não dói. Quem aprende a esperar a vinheta está treinando, em pequeno, o intervalo entre a pista e o gole.

E há uma medida simples, que vale mais do que qualquer promessa: quanto tempo dura hoje o intervalo entre a pista e o ato? Se houve recaída, a pergunta da Brandura é exatamente essa. Estimar, escrever, e trabalhar para alargar esse intervalo da próxima vez.

O sinal de que a Brandura está entrando é audível: você deixa o outro terminar a frase. Numa casa marcada pela bebida, a família costuma perceber primeiro pelo volume. A casa fica mais baixa.

O corpo que pede e é confundido com vontade

Há uma descoberta que a pessoa em recuperação costuma fazer com surpresa, e Casarotto a descreve assim: muito do que ela chamava de vontade de beber era fome. Era sono. Era dor. Era o corpo pedindo alguma coisa que ela não sabia nomear, e que o sistema traduzia pelo único nome que conhecia. Quando a pessoa aprende a ler o corpo, uma parte dos puxões perde o nome de bebida e volta a ter o nome certo: eu estou com fome, eu estou exausto, eu estou com dor. E isso se resolve com comida, com cama, com médico.

O sono merece atenção especial. Na fase do uso, ele é destruído pela substância: apagar de álcool não é dormir. Na abstinência, é destruído pelo corpo em alarme. E muita recaída começa por aqui: três noites sem dormir, e a bebida volta a parecer a única coisa que faz dormir. Insônia que persiste é o primeiro lugar onde vale pedir ajuda médica.

Há um motivo para isso pesar tanto. Álcool, privação de sono, dor, fome e doença rebaixam o comando de si. O freio do cérebro é caro de manter, e é a primeira função a falhar quando o corpo está sob pressão. Cuidar do corpo, então, não é capricho. É dar ao freio as condições de funcionar.

Casarotto organiza esse cuidado em quatro eixos: sono; alimentação; movimento; repouso e higiene. E pede que a pessoa mexa em um ou dois por vez, não em todos. Horário de deitar e de acordar. Refeições em horário, sentado, comida de verdade. Uma caminhada. Banho, roupa limpa, cama arrumada. Para quem viveu meses sem nada disso, é o primeiro sinal de que voltou a morar em si. E inclui o médico: exames, dentista, fígado, coração, e o psiquiatra quando o quadro pedir.

Dois cuidados nesse caminho. O primeiro: muita gente troca a bebida pelo doce. Vale reparar nisso sem se condenar. É o sistema de recompensa procurando outro objeto. O segundo é uma armadilha que parece saúde. A pessoa sai da bebida e entra na academia, no suplemento, no espelho. Às vezes é cuidado. Muitas vezes, nas palavras de Casarotto, é orgulho com camiseta regata: o corpo virou vitrine, medido contra os outros, à espera de aprovação. A pergunta que separa uma coisa da outra é esta: este corpo está servindo ao que eu preciso fazer, ou ao que eu preciso mostrar? Escrevi sobre o corpo que sinaliza e ninguém escuta em A negligência é egoísmo do avesso.

E há um luto que raramente é nomeado. O corpo de antes não volta. O dente que se perdeu, o fígado marcado, a doença que ficou. Olhar no espelho e ver a prova do fracasso gera vergonha, e a vergonha pede anestesia. Aceitar o corpo que ficou é dizer: esta é a casa onde eu vou morar daqui para frente, e eu vou cuidar dela.

As horas vazias

A bebida ocupava o dia inteiro. Não só as horas do efeito: as horas de conseguir, de pensar, de esconder, de se recuperar, de planejar a próxima vez. Quando ela sai, sobra um buraco no relógio. E tempo vazio, para um cérebro em que o querer ainda está sensibilizado, funciona como pista.

"A pessoa com dependência que não sabe o que fazer com a tarde vai acabar sabendo." — Eduardo Casarotto

A virtude que trabalha esse buraco é a Utilidade. Não é encher o dia de distração. É encher o tempo que sobra, depois de descansar e de atender às necessidades, de coisa que vale.

Casarotto aponta as duas saídas mais comuns para a tarde vazia, e as duas são armadilhas. A tela: a rolagem infinita, a série atrás da série, o celular até de madrugada. É o mesmo sistema com outro objeto. E a cama: o dia inteiro deitado, "descansando", que no fundo é o corpo evitando qualquer esforço. Nenhuma das duas descansa. No fim do dia, a pessoa está mais cansada e mais vazia do que de manhã.

Por que é tão difícil escolher a coisa útil? Porque o cérebro pesa custo e retorno antes de agir. O descanso tem custo zero e retorno imediato. Ser útil tem custo imediato e retorno adiado, e o cérebro desvaloriza muito o que está longe. Não é falha de caráter. É o desenho do sistema, e na recuperação ele pesa ainda mais, porque tudo o que não é a bebida parece sem graça. Por isso a Utilidade começa pequena: uma tarefa, hoje, mesmo sem vontade. A vontade vem depois do fazer, não antes. E cada vez que a pessoa faz algo útil sem vontade e sente, horas depois, a disposição voltar, o cérebro registra que o retorno adiado existe.

Há também uma face muito concreta. A bebida tirou da pessoa um lugar no mundo: o pai com quem se podia contar, o trabalhador, o filho presente. Ser útil de novo é recuperar esse lugar, uma tarefa por vez. Quem descobre que é útil para alguém descobre que existe, e quem existe para alguém tem menos buraco para tapar.

Uma ressalva importante. O trabalho também pode virar fuga. A pessoa para de beber, passa a trabalhar catorze horas, não tem tempo para o grupo nem para o filho, e todo mundo aplaude. Às vezes ela deu a volta por cima. Às vezes só trocou de altar. O teste é perguntar o que aconteceria se você parasse. Se a resposta for "algo importante ficaria por fazer", é utilidade. Se for "eu teria que lidar com alguma coisa", é fuga vestida de produtividade. E desânimo que dura semanas, com tristeza e sem vontade de nada, não é preguiça: pode ser depressão, e é assunto para o médico.

O sinal de que a Utilidade entrou é fino: o descanso volta a descansar.

Por que essas três vêm depois

Brandura, Cuidado com o Corpo e Utilidade são virtudes do Desenvolvimento. Na Pirâmide das 33 virtudes, elas vêm depois da Base, e não por formalidade. Sem a Base, elas viram encenação: a calma vira pose, o corpo vira vitrine, a utilidade vira compensação apressada pelos anos perdidos.

A Base abre com a Humildade e a Abnegação, em par. A Humildade trabalha o orgulho, o sistema da necessidade de importância. É ela que permite admitir o problema, pedir ajuda e aceitar que a reconstrução demora. O "eu paro quando eu quiser" e o "eu não sou como esses aí" são o orgulho protegendo a posição. A Abnegação trabalha o egoísmo, o sistema que põe o meu alívio de agora acima de tudo. Ela devolve ao centro quem convive com você: a pessoa que esperava acordada, o filho que aprendia olhando.

Depois vem o resto da Base. A Aceitação, do que aconteceu e do corpo que ficou. O Perdão, do que foi feito e do que foi sofrido. A Responsabilidade, de cuidar do próprio tratamento sem esperar que a família cuide por você. O Estado de Certeza, para seguir sem garantia. A Perseverança, para o dia trinta, o dia noventa, o dia trezentos. E a Individuação, para descobrir quem você é sem o copo.

Só então entram as três deste texto, cada uma com o que pede antes. A Brandura precisa da Humildade, da Aceitação, da Abnegação, da Responsabilidade e da Individuação, e anda com a Verdade, para que a calma não vire fuga de uma conversa necessária, e com a Paciência, que leva a espera mais longe. O Cuidado com o Corpo precisa da Humildade, da Aceitação e da Individuação. A Utilidade precisa da Abnegação, da Responsabilidade e da Perseverança. A combinação canônica da Virtologia para o vício, a compulsão, o impulso e o imediatismo é Humildade, Abnegação, Verdade, Brandura, Paciência, Responsabilidade e Aceitação.

No horizonte, no Topo, está a Ajuda ao Próximo, que é a Utilidade levada ao Topo. Não é por acaso que um dos tratamentos que mais funcionam para o álcool é um grupo de iguais. Uma revisão da Cochrane com 27 estudos mostrou que os programas de facilitação dos doze passos produziram mais abstinência contínua em doze meses do que outras intervenções (Kelly, Humphreys e Ferri, 2020). E um grande levantamento americano encontrou, entre adultos cuja dependência de álcool tinha começado havia mais de um ano, só um quarto ainda dependente (Dawson e colaboradores, 2005). A saída existe, e muita gente a encontra.

Três perguntas antes do gole

Construir a sobriedade nos lugares onde ela se decide. A prática não é resistir mais. É olhar para três lugares antes de deixar o puxão decidir sozinho.

  1. Quando vier o puxão, conte até cinco. Antes de qualquer decisão, 1, 2, 3, 4, 5. Se o puxão for forte, ligue na hora para alguém do grupo ou da equipe que acompanha você.
  2. Pergunte ao corpo: é fome, sono ou dor? Se for, resolva isso primeiro. Comida, cama, remédio indicado pelo médico. Muitos puxões perdem a força quando ganham o nome certo.
  3. Olhe o relógio: a próxima hora tem alguma coisa dentro? Se a tarde está vazia, decida agora uma coisa útil para ela: uma tarefa da casa, uma ligação para alguém, algo que você possa fazer por outra pessoa.
  4. Escolha um eixo do corpo para esta semana, no máximo dois. Horário de deitar, refeição sentado, uma caminhada, o médico marcado. Não mexa em tudo ao mesmo tempo.
  5. À noite, escreva cinco linhas. O que o meu corpo sinalizou hoje, e eu percebi? Algum puxão era fome, sono ou dor? Qual hora vazia pesou? Quanto durou o intervalo entre a pista e o ato? O que farei amanhã? Sem se punir e sem se elogiar.
  6. Nunca vá atrás de uma pista para se testar. Treinar o intervalo é diferente de provocar o puxão. O bar, a garrafa em casa, a turma de sexta não são prova de força.

Um aviso sobre o passo cinco. Se houver um gole, o que você escreve depois importa muito. Alan Marlatt descreveu o que chamou de efeito de violação da abstinência: depois de um deslize, a pessoa diz a si mesma "eu sou fraco, eu não tenho jeito", e esse pensamento a empurra do deslize para o porre (Marlatt e Gordon, 1985).

"A diferença entre um escorregão e uma recaída está no que a pessoa diz a si mesma depois do copo." — Eduardo Casarotto

Escrevi mais sobre o dia seguinte em A recaída não apaga o caminho.

O que se constrói no lugar

A abstinência tira a bebida. A sobriedade põe alguma coisa no lugar dela: um intervalo onde antes só havia reação, um corpo escutado antes de virar sintoma, uma tarde com coisa dentro. Nada disso aparece de uma vez. Aparece em sinais pequenos, que a família costuma ver antes de você: ele foi dormir no horário, ele comeu sentado, ele deixou a outra pessoa terminar a frase, a casa ficou mais baixa.

E talvez esse seja o ponto mais libertador. Quem só parou vive brigando com a falta da bebida. Quem está construindo a sobriedade passa, aos poucos, a ter outra coisa para fazer com a vida.

Se você bebe muito todos os dias, não pare de uma vez e sozinho: procure antes uma Unidade Básica de Saúde ou um CAPS AD, que atendem pelo SUS, e planeje a parada com quem vai acompanhar você. Tremor forte, confusão, alucinação ou convulsão nos dias depois de parar são emergência: ligue para o SAMU, no 192. Grupos de apoio, como os de doze passos, são gratuitos e ajudam muito. Se a vontade de beber vier junto com a vontade de sumir ou de morrer, ligue para o CVV, no 188, de graça e a qualquer hora. Se em casa a bebida vem junto com agressão, a segurança de quem mora ali vem antes de tudo.

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